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Correio da Manhã

Cultura
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O ASSASSINO DENTRO DE CASA

Um mundo onde as crianças começam por matar pequenos animais e acabam por matar os pais é o que nos pinta o alemão Marius von Mayenburg na peça ‘Cara de Fogo’, que João Mota transformou num excelente espectáculo a ver na Comuna, em Lisboa, até fins de Junho.
5 de Maio de 2004 às 00:00
Mayenburg que, tal como Sarah Kane, se tem afirmado em todo o mundo como um dos novos valores da dramaturgia contemporânea (é dramaturgo residente da prestigiada Schaubühne de Berlim), conta-nos a história de uma família disfuncional cujos filhos (uma rapariga e um rapaz) mantêm relações sexuais regulares e se entretêm a pegar fogo a toda a cidade.
E aqui sociólogos e psicólogos entrariam com as suas teorias sobre a falta de referências dos jovens, sobre a sua (nossa) profunda descrença num futuro melhor, etc. etc.
Tudo muito bem. Mas este texto não pretende ter qualquer função pedagógica e Mayenburg limita-se a apresentar os factos tal como os vê: há, hoje em dia, uma fatia considerável de jovens que usa o seu tempo e a sua energia para destruir. A si próprio e/ou aos outros.
João Mota pegou no texto e transformou-o num espectáculo de grande clareza, com um bom ritmo e que se segue com prazer do princípio ao fim. Num cenário almofadado, os actores (de meias) mudam de cena rapidamente e sem barulho. Chegam, dizem o que têm a dizer e vão embora. A projecção de vídeo em tempo real (com a câmara apontada à boca dos intérpretes) sublinha o que dizem.
Ou seja, a encenação eliminou o acessório e concentrou-se no essencial. Os actores estiveram à altura do desafio e estão, sem excepção, de parabéns. Carla Chambel e João Tempera são dois jovens que nos horrorizam, Álvaro Correia desperta a nossa simpatia, Manuela Couto e Carlos Paulo são pais que nos inspiram, no fim do espectáculo, infinita piedade.
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