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O chá das tias

As senhoras tardavam em dar notícias: Carole não gravava desde 2001, Carly estava em pousio desde 2000.

08 de janeiro de 2006 às 00:00

De quando em vez, como nas ocasiões em que sentimos a falta dos miminhos familiares, decidimos investigar o que andam a fazer as figuras que nos encheram de ilusões, referências e paixões do passado. Já não se pode falar em surpresa quando descobrimos que, longe dos grandes centros mas ainda mais distantes da inactividade e do silêncio, as ‘queridas tias’ continuam a dar sinais de inquietação, muito mais interessantes do que simples provas de vida. Por hoje, os exemplos são dois, distintos (em mais do que um sentido) mas próximos: Carole King, que cumprirá 64 anos em Fevereiro, e Carly Simon (foto), que ultrapassou a barreira dos 60 em meados de 2005.

Foram ambas primeiras-damas (e nunca ‘damas de companhia’) na década de 70, se bem que Carole leve alguma vantagem – nos ‘sixties’ ela era já uma reconhecida autora, antes de se decidir a cantar. Estreou-se como solista em 1968, três anos antes da intempestiva chegada de Carly. Tanto uma como outra optaram pela qualidade de vida, longe dos grandes centros urbanos norte--americanos: Carly, que andou em luta prolongada com uma doença grave, vive entre Martha’s Vineyard, nos arredores de Boston, e tem publicado livros infantis e discos também dedicados às crianças (‘Piglet’s Big Movie’ e ‘Best Of Pooh & Heffalumps, Too’). Carole escolheu o estado de Idaho, onde pratica o activismo ecológico que, por exemplo, a levou a depor perante o Congresso em Outubro último, como parte contestatária à legislação das florestas aprovadas para a sua casa adoptiva.

Descrendo de coincidências, aí estão as tias de volta, com discos que espelham bem as respectivas personalidades. Para Carole King, um duplo CD registado em palco, ‘The Living Room Tour’. Com a eficácia emocionante do seu piano, a companhia de uma ou duas guitarras, a parceria ocasional da voz de uma das suas filhas (Louise Goffin), trata-se de uma impressionante releitura dos seus grandes êxitos, de ‘Locomotion’ a ‘You’ve Got A Friend’, de ‘Natural Woman’ a ‘So Far Away’, de ‘Jazzman’ a ‘I Feel The Earth Move’. Juntam-se-lhes canções mais recentes, como ‘Love Makes The World’, ‘Loving You Forever’ e ‘Where You Lead I Will Follow’, tema principal da série ‘Gilmore Girls’, em que a cantora participou como actriz convidada. No todo, é um álbum tocante, capaz de reafirmar a ideia de que as grandes canções não passam de moda, mais do que suficiente para nos fazer garantir que a maturidade interpretativa não esbate as emoções e as convicções associadas à imagem e à voz de Carole King, muito longe da decadência.

Mais sofisticado e mais ‘nocturno’ é ‘Moonlight Serenade’, quarto disco da série particular que Carly Simon dedica aos ‘standards’ da canção americana (‘Torch’, de 1981, ‘My Romance’, de 1990 e ‘Film Noir’, de 1997 são os directos antepassados). Marca o reencontro da cantora com um produtor que, há mais de três décadas, contribuiu largamente para a sua ascensão ao estrelato, o veterano Richard Perry (com quem trabalhou em ‘No Secrets’, ‘Hotcakes’ e ‘Playing Possum’, entre 1972 e 1975). O resto, de uma elegância irresistível, pontuada pela voz inconfundível de Carly, adivinha-se, sobretudo se se disser que, entre os autores recrutados, estão Glenn Miller, Cole Porter, Harry Warren, Lorenz Hart, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein II, Jerome Krn, os irmãos George e Ira Gershwin, Sammy Cahn. O desfecho é tão sumptuoso como arrasador.

As duas senhoras tardavam em dar notícias – Carole não gravava desde 2001, Carly estava em pousio com discos ‘adultos’ desde 2000. Agora, as tias – que gravaram juntas e têm uma ligação que, resumidamente, se pode lembrar: Carole escreveu ‘You’ve Got A Friend’, que valeu um êxito a James Taylor quando este era marido de Carly… – voltaram com o reconfortante calor dos respectivos chás. De ervas naturais, para Carole. De sabor refinado, para Carly. Não são incompatíveis, bem pelo contrário: podem beber-se de seguida, sem medo dos efeitos secundários. A não ser a nostalgia, claro.

- Entre os autores das bandas sonoras contemporâneas, avulta o nome do escocês CRAIG ARMSTRONG. Por um lado, ele é o parceiro eleito dos delírios do realizador Baz Luhrmann (‘Romeo and Juliet’, ‘Moulin Rouge’). Por outro, em modelo mais introspectivo, já nos brindou com peças de eleição como ‘The Bone Collector’ ou ‘The Quiet American’. ‘Film Works 1995-2005’ é um apanhado exaustivo dos seus esforços, não faltando sequer a música do anúncio Channel com ‘miss’ Nicole Kidman. Uma peça de colecção.

- Foram das bandas obscuras e decisivas da década de 90, escudados na melancolia das respectivas guitarras e canções, capazes de momentos de puro delírio íntimo como ‘Grace Cathedral Park’, ‘Katy Song’ ou ‘Summer Dress’. Agora, com a reedição de ‘Retrospective’ (duplo CD, com o segundo disco a juntar ‘demos’ e gravações ‘live’), volta a estar à nossa disposição o talento tranquilo dos RED HOUSE PAINTERS, liderados pelo guitarrista e cantor Mark Kozelek. Merecem a entrada na máquina do tempo.

- Confesso que discos como ‘Generation’, o segundo álbum dos londrinos AUDIO BULLYS, me fazem alguma espécie: se a ideia é pôr o povo a dançar, não vale a pena estar com rodriguinhos de intelectualidade e apostar em mostrar todos os truques tecnológicos de uma vez. Se, por outro lado, o objectivo é discorrer sobre a vida moderna, falta-lhes bagagem, sentimento e uma rítmica menos primária. Aquilo que fazem com uma canção de Nancy Sinatra (‘Shot You Down’) é um assassínio, puro e simples. Zero.

- É uma verdade óbvia, mas DIVINE BROWN parece precisar que lha recordem – não é Aretha Franklin quem quer, mas quem pode. Esta canadiana negra parece esquecer-se de que, mais do que a voz e o balanço das canções, fazem falta a alma e as vivências. Que lhe faltam para ultrapassar as aflições. Experimentem entregar ‘Old Skool Love’ ou ‘U Shook Me’ (ambas em ‘Divine Brown’) a uma voz com percurso e verão a diferença. Pior ainda: ela aborda Joni Mitchell (‘Help Me’) de qualquer maneira. Acto falhado.

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