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Correio da Manhã

Cultura
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O DESCONHECIDO ALI TÃO PERTO...

O Ballet Gulbenkian (BG) estreou, no Grande Auditório da Fundação, um programa com obras de Didy Veldman e Clara Andermatt, coreógrafas conhecidas da casa que, desta vez, embarcaram numa viagem (demasiado vaga) de ‘confrontação com o desconhecido’.
6 de Novembro de 2004 às 00:00
A artista holandesa começa ‘Outsight’ com um cabeçudo sorridente, atrás de uma enorme lente entrando, depois, um a um, nove bailarinos vestidos de negro. Engenhosos, enérgicos e curtos solos, duetos e trios sucedem-se em frente a uma discreta superfície espelhada, multiplicando o número de elementos numa cena escura.
A banda sonora inclui percussão e vozes que os bailarinos transportam para a plateia circulando entre o público e anulando fronteiras ao desmistificar a intocabilidade dos ofegantes artistas. Não se tratando de uma peça de ‘ruptura’ ou ‘confrontação’, é um trabalho ‘limpo’, confidente e do agrado da plateia.
Já Clara Andermatt, com ‘O Canto do Cisne’, arriscou mais, jogando com referências como o ‘Lago’ e a ‘Morte do Cisne’ (a música ‘distorce’ mesmo o ‘Carnaval’ de Saint-Saens) e a ‘Sagração da Primavera’, que pouco adiantam a quem não conhece as peças originais. Um grupo de 15 bailarinos protagonizam uma peça longa mas com registos muito fortes.
O movimento começa algo empastado transferindo-se para linhas espasmódicas de corpos disformes em que pontua a exibição das pernas femininas e de saltos másculos buscando um inusitado virtuosismo.
Para um grupo de bailarinos com a excelência dos do BG – até o folhear de uma lista telefónica pode transformar-se em dança de substância – este misto de ‘paródia’ e ‘incapacidade’ acaba por esgotar-se numa espécie de bidimensionalidade do absurdo.
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