Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
1

O elogio da palavra

Nada torna a vida mais urgente do que a proximidade da morte”, quem assim sintetiza o espírito da obra (‘Os Meus Sentimentos’) não é senão a própria autora (Dulce Maria Cardoso) e, estados de alma ou condolências, usou e abusou da ambivalência do título por toda a narrativa.
19 de Março de 2005 às 00:00
Fez bem, já que, daí resultou leitura inquieta e inquietante, em suma, que apetece.
Segundo livro da autora, ‘Os Meus Sentimentos’ sucede a ‘Campo de Sangue’ que, em 2001, ano de aniversário da editora (Asa) conquistou, por decisão unânime dos jurados, o Prémio Acontece, de atribuição única relativa à ocasião.
E “a originalidade da proposta literária”, na origem da distinção, volta à carga neste novo livro, por muitos já reconhecido como o romance da consagração.
“Inesperadamente”... A narrativa abre e fecha com um advérbio: a palavra que modifica o verbo, da leitura de Nuno Júdice, na apresentação da obra. A estrutura circular, a voz líquida, o registo confessional e o discurso testamentário fazem o resto pela mensagem: é pelas palavras que a vida ganha a sua maior dimensão.
OUTRAS VIDAS
Violeta, a protagonista, está presa dentro do carro capotado e só o recurso às palavras lhe permite sobreviver. E à boleia das palavras chegam memórias e com elas chegam vidas. Sobrevidas.
Ângelo, personagem metálica, está certo: “Não há nada que o silêncio não mate”.
Enquanto espera ser resgatada, Violeta passa em revista uma vida cheia de outras vidas: os espectáculos do Ângelo, a caixa de supermercado da Dora, a loucura do Baltazar, as profecias da Celeste, Maria da Guia e o destino... Por conhecer fica o destino de Violeta e isto só acontece porque não se morre de uma morte só mas de muitas. Umas menores, outras maiores, todas cumulativas. Quotidianas.
“Violeta mergulha nessa eternidade e recorda o que pode ter sido o último dia da sua vida, e nesse dia, toda a vida, e nessa vida, os pais, a filha, a criada, o bastardo, e em todos, a urgência da vida que prossegue indiferente como a estrada de onde ainda agora se despistou. Nessa posição instável, de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança, parece que tudo se desamarra. O presente perde a opacidade com que o quotidiano o resguarda e Violeta afunda-se nos passados de que é feita, uma espiral alucinada de transparências e ecos”, lê-se... Leia-se mais. Leia-se tudo. De lamentar, neste livro, só o final e, mesmo esse, só por indicar o fim.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)