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Correio da Manhã

Cultura
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O eterno recomeço

Não é ‘Quarry’, talvez. Mas ‘Ringleader Of The Tormentors’ já vale como um dos discos do semestre, pujante e inteligente.
15 de Abril de 2006 às 00:00
Com este disco, Morrissey recomeçou os seus contactos com o génio
Com este disco, Morrissey recomeçou os seus contactos com o génio FOTO: d.r.
Convenhamos que a vida de Steven Patrick Morrissey não tem sido um mar de rosas: ao passar meia dúzia de anos como a face exposta de um grupo mítico e imaculado como os Smiths, o cantor foi engolido pelo superlativo que, muito justamente, se reserva à banda de que ele era metade do núcleo criador. A outra, já se sabe, era rubricada pelas guitarras e pelo instinto melódico de Johnny Marr. Quando os compadres se zangaram, nos idos de 1987, Marr, virtuoso disponível, mostrou sempre talento e engenho para se encostar a terceiros: gravou com Talking Heads, The The, Kirsty MacColl, Pretenders, Billy Bragg, Beck, Bert Jansch, Neil Finn, Oasis, inventou (com Neil Tennant, dos Pet Shop Boys, e com a rapaziada New Order) os Electronic. Deixou marcas. Mas, quando teve de gravar em nome próprio (com os Healers, o álbum ‘Boomslang’, de 2003), a coisa fiou mais fino: a crítica dividiu-se, o público perdeu por falta de comparência.
O caso de Morrissey era bastante mais complexo – ele tinha de manter o nível apaixonado ou provocador dos seus textos, de continuar a descobrir parceiros à altura para garantir a componente musical. Ora se este capítulo nem começou mal (‘Viva Hate’, ‘Your Arsenal’, ‘Vauxhall and I’), é preciso reconhecer que durante uma década (1994-2004) o homem caminhou sempre pelas vielas do desastre. Ao ponto de ‘You Are The Quarry’ ser considerado uma improvável ressurreição, recuperado o toque de classe dos anos dourados. Seguiu-se o notável ‘Live At Earls Court’, com os hinos próprios e os emblemas dos Smiths postos em palco, num desvairado ‘vai ou racha’. Foi…
Agora, aí está ‘Ringleader Of The Tormentors’, sabiamente produzido por Tony Visconti (cfr. alguns dos melhores álbuns de David Bowie), com parcerias habituais (Jesse Tobias, Alain Whyte, Boz Boorer) e até com uma orquestração de Ennio Morricone. O ‘single’ de lançamento é ‘You Have Killed Me’ que, apesar do título, tem um recado positivo e concreto, além do piscar de olhos a Pier Paolo Pasolini e Anna Magnani e de um refrão irrecusável. Na calha estão ‘The Youngest Was The Most Loved’ (Maio), que passa – em primeira leitura – por ser a história de um superprotegido que se transforma em ‘serial killer’, e ‘In The Future When All’s Well’ (Julho), construída em cima de uma muralha de guitarras acústicas, cantada de forma soberba, tão depressa sarcástica como assolapada.
Ainda assim, o melhor mora entre as outras nove cantigas: ‘I Will See You In Far Off Places’ evoca directamente ‘How Soon Is Now?’, uma das obras-primas dos Smiths; ‘Dear God, Please Help Me’ é uma pérola, primeiro de contenção, depois de explosão; ‘I’ll Never Be Anybody’s Hero’, cheia de metais, é mais uma autoflagelação ao jeito do autor; ‘To Me You Are A Work Of Art’ roça o absoluto simples; ‘At Last I Am Born’ é uma despedida em que se aceita a pompa, tendo em vista a circunstância.
Não é ‘Quarry’, talvez. Mas ‘Ringleader Of The Tormentors’ já vale como um dos discos do semestre, pujante e inteligente. Morrissey recomeçou os seus contactos com o génio.
TOCA A TODOS
Das reedições ‘post mortem’ de JOHNNY CASH, recentemente a acompanhar o filme ‘Walk The Line’, esta é das mais representativas: junta as gravações de dois espectáculos em prisões, ‘At Folsom Prison’ e ‘At San Quentin’ são dois manifestos de génio e empenhamento de um homem único. Históricos, diga-se.
Quem a conhecer da carreira nos Lamb, deve preparar-se para a mudança: a cantora LOU RHODES, em estreia a solo com ‘Beloved One’, troca a electrónica pela orgânica. O disco é sereno, magnético, envolvente. Ouçam-se as cristalinas ‘Each Moment New’, ‘Treat Her Gently’ e ‘Save Me’: explicam o entusiasmo.
MERCADO EXTERNO
Há mais de 40 anos que a senhora nos embala, tecendo tangentes ao ‘british folk’, capaz de enfeitiçar com a técnica e com a expressividade da voz. NORMA WATERSON é – com June Tabor ou Maddy Prior – uma das guardiãs do templo da música popular, bem apoiada por marido e filha (Martin e Eliza Carthy, respectivamente).
Este ‘The Definitive Collection’ é ideal para a iniciação, cruzando tradicionais com temas próprios e até versões (como a de ‘Black Muddy River’, de Jerry Garcia). Com uma certeza: não passa de moda. (www.amazon.co.uk)
TOCA E FOGE
Como passar do rosa choque ao rosa pálido: PINK, a rebelde de ‘Try This’, fenece em suas convicções quando damos de caras com ‘I’m Not Dead’, quarto álbum da carreira. Fraquinho, apesar de começar bem, com a enérgica ‘Stupid Girls’. A presença do produtor de Anastacia não terá a ver com o desfecho?
Outro desmaio inesperado é o dos YEAH YEAH YEAHS, trio que tinha mostrado sua graça em ‘Fever To Tell’. Agora, na hora de ‘Show Your Bones’, ficam pose e formato, perdidas atitude e ideias. Parece um esgotamento precoce – e os ‘riffs’ de guitarra e as malhas de baixo são camuflagem inútil no deserto.
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