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Correio da Manhã

Cultura

O fado é a minha vida

Estou-lhe grata por tudo. Pelo fado... que é a minha vida. É uma emoção muito grande”, confessou ontem ao CM Maria da Fé, vencedora do Prémio Amália Rodrigues para Intérprete Feminina. Ao fim de mais de 40 anos de carreira, a ‘segunda Amália’, como um dia a alcunharam, estava emocionada: “Ela era o meu ídolo desde criança.”
5 de Novembro de 2006 às 00:00
As memórias de Amália vêm de longe. “Ficam sempre. Apesar de só ter falado com ela duas vezes – uma em sua casa na passagem de ano e outra aqui no Sr. Vinho – trabalhámos juntas, ainda no Porto, quando era miúda, e foi sempre a pessoa que mais gostei de ouvir cantar.”
“Quando me ouvia cantar a Amália costumava dizer que não sabia se era ela ou eu e houve logo quem visse ali maldade e tentasse arranjar tricas entre nós. Alcunharam-me de ‘segunda Amália’ mas eu sou a primeira Maria da Fé”, esclarece para, sem falsas modéstias, adiantar: “Fiz carreira porque tinha valor e devo-a ao meu público e à Imprensa.”
Razão porque sempre evitou cantar Amália, cujo tema preferido é ‘Lágrima’, o único que ainda canta.
Mas hoje entristece-a ser a única que continua no activo. Canta regularmente no Sr. Vinho (“evito fazê-lo todos os dias porque quando canto é das unhas dos pés até à cabeça”) e promete cantar “enquanto conseguir. Já não é até que a voz me doa, é até conseguir. Porque o fado é uma vida, uma história. E, a maior parte das vezes, quando canto acabo a chorar...”
“Um exemplo do próprio percurso fadista contemporâneo”, no entender do júri deste prémio, Maria da Fé levou o fado a todo o Mundo e considera que o futuro da canção nacional está “bem assegurado” com novos valores como Mariza (“sou fã”), Camané, Ana Moura, Aldina Duarte, de quem fala com orgulho. Afinal, todos passaram pelo Sr. Vinho.
Os prémios Amália Rodrigues são entregues amanhã no Teatro S.Luiz. O júri, presidido por Fernando Machado Soares, integrou Sara Pereira, Alina Vaz, Nuno Lopes e José Luís Gordo.
VIEIRA NÉRY TAMBÉM PREMIADO
Este ano, às 17 diferentes categorias o júri decidiu adicionar um novo galardão, denominado Prémio Amália Rodrigues de Ensaio e Divulgação e destinado a personalidades ou instituições que se tenham destacado nessas duas áreas. Este ano, o galardão será atribuído ao musicólogo Rui Vieira Néry, que recentemente editou o livro ‘Para uma História do Fado’.
No entender do júri, a criação deste novo prémio justifica-se pelo “grande interesse pelo fado e por ser uma questão da actualidade”. Subdirector do departamento de música da Fundação Calouste Gulbenkian, Rui Vieira Néry é a pessoa que “melhor tem sabido elaborar uma síntese sobre a história do fado”, referiu o júri. Vieira Néry tem ainda uma ligação sentimental ao fado, uma vez que é filho do guitarrista Raul Néry, distinguido em 2005 com o Prémio Carreira.
PERFIL
Maria da Conceição Costa Gordo nasceu no Porto a 25 de Maio de 1945 e começou a cantar ainda criança. Aos 14 anos ganhou um concurso de cantadeiras e aos 17 mudou-se para Lisboa. Estreou-se profissionalmente na Adega Machado e, em 1969, tornou-se na primeira fadista a participar no Festival RTP da Canção com ‘Vento do Norte’. É dona do restaurante/casa de fados Sr. Vinho.
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