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Correio da Manhã

Cultura
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O grande visionário

Vamos em escadinha: o DVD musical foi uma forma descoberta pela indústria discográfica para combater a crise universal e, já agora, para estender e ligar as fronteiras da Arte (como em tudo, nos melhores exemplos).
2 de Janeiro de 2005 às 00:00
Valeu como um dos selos mais significativos de 2004, em que até os portugueses tiveram direito a este ‘brinquedo’ mais do que útil e mais do que agradável. Segundo degrau: Peter Gabriel foi um dos homens do ano para os palcos portugueses, primeiro no lisboeta Rock In Rio, depois no minhoto festival de Vilar de Mouros.
Ora Gabriel, que sempre se mostrou sedento da ligação à imagem (nos clips como na cenografia dos concertos), ainda não se tinha virado para o formato DVD. Há pouco mais de ano e meio, libertou o seu ‘Secret World Live’; há um ano, chegou a vez do revolucionário ‘Growing Up’, outra vez centrado no palco; agora, para contentamento geral, está aí ‘Play – The Videos’, uma aula prática de como os pequenos filmes centrados em canções podem ficar nos antípodas dos esforços menores e podem ultrapassar largamente a função de objecto promocional.
Gabriel já tinha deixado as suas impressões digitais de formas bem distintas neste terreno das artes visuais, fosse pela via da máxima sofisticação e divertimento, como acontece com o clip de ‘Sledgehammer’ (de Stephen R. Johnson), fosse pela simplicidade quase rústica, o ‘ovo de Colombo’ emocionante e irresistível, no seu cronometrado rodopio com Kate Bush em ‘Don’t Give Up’ (realizado por Goldley and Creme). Mas esta é a primeira ocasião em que, de jeito sistemático e não cronológico, se percebe como, desde 1982 (‘Shock The Monkey’, assinado por Brian Grant) a 2002 (o fabuloso e assustador ‘The Barry Williams Show’, assassina caricatura dos ‘reality shows’ televisivos, numa pequena jóia realizada pelo actor Sean Penn), Gabriel sempre colocou a imagem entre os seus interesses e instrumentos primordiais.
‘Play – The Videos’ é um daqueles DVD de canções a que não se resiste, vê-se do primeiro (Gabriel com o pai, numa tocante versão de ‘Father, Son’) ao último (o experimental ‘Digging In The Dirt’), sem esquecer os extras (‘Games Without Frontiers’, registado ao vivo na digressão de 2004, ou ‘Modern Love’, o ‘ensaio’ de 1977). Ora um dos pormenores espantosos está na possibilidade de irmos presenciando passo a passo o envelhecimento, os encontros (Miss Bush, Sinéad O’Connor, Youssou N’Dour), a maturação de um homem cuja música tende, tantas vezes (ou cada vez mais?) a afastar-se dos padrões mais comerciais. Assim, com imagem, da aventura ao ‘entertainment’, temos finalmente direito ao ‘best of’ que Gabriel já tentou antes em diferentes edições áudio. Com ‘Biko’ em palco, com a ironia tecnológica de ‘Nig Time’ e com esse monumento ao mistério e às brumas da emoção que é ‘Mercy Street’, fica-se finalmente satisfeito. À espera da próxima expedição de Peter Gabriel, o visionário que é sempre, mas sempre, bem-vindo.
TOCA A TODOS
n Podem não chegar à gravação do segundo álbum mas ficaram como uma marca do ano findo. São ainda melhores em DVD, juntando extravagância e provocação, ‘kitsch’ puro em ‘We Are The Scissor Sisters… And So Are You’. Um documentário explica as bases de formação dos SCISSOR SISTERS, um concerto em Brighton fixa aquilo que os portugueses também viram, os vídeos (especialmente ‘Confortably Numb’ e as duas versões de ‘Laura’) fazem desta edição um dos documentos a reter de 2004. Sem margem de erro.
n Outra das revelações de 2004, a menina-mulher que fez regressar a soul ao território branco e a colocou no plano das possibilidades para ‘teenagers’. Este concerto nova-iorquino divide-se quase rigorosamente ao meio pelos dois álbuns de JOSS STONE: seis temas vêm de ‘The Soul Sessions’, sete de ‘Mind, Body & Soul Sessions’. O DVD chama-se ‘Mind, Body & Soul Sessions’ (lógico…) e é espantoso ver a protagonista sobre o palco. Como extras, três bons ‘clips’ e um documentário ‘de estrada’.
TOCA E FOGE
Ainda os DVD: vinte anos depois, aquilo que havia de exótico e transgressor nos CULTURE CLUB envelheceu tão mal como a sua figura de proa, o rapaz George. Dos 17 clips apresentados em ‘Greatest Hits’, escapam ‘Do You Really Want To Hurt Me?’, ‘Karma Chameleon’ e ‘The War Song’ (afinal, foi ou não realizado por Fellini?), já que o pop-reggae não chega para tudo. Um concerto de 1983, sem grandes atractivos, e uma entrevista de 1998 completam a edição. Não resiste mesmo à máquina do tempo.
n Pior é o mergulho em ‘The Best Of Mike Oldfield –Elements’. O multi-instrumentista teve a sua época de glória e, apesar de uma entrevista e de duas experiências, para ‘art movie’ (’The Wind Chimes’) e documentário (’The Space Movie’), o bocejo é inevitável, com muita guitarra enfeitada e muita textura sonora ‘colada por cima’. A MIKE OLDFIELD, valem-lhe ‘Tubular Bells’ (ainda) e ‘Étude’ (do filme ‘The Killing Fields’) e canções ‘poppy’ como ‘Five Miles Out’ e ‘Moonlight Shadow’. É pouco.
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