O ‘Washington Post’, o jornal que expôs o escândalo ‘Watergate’, publicou, a 20 de Janeiro, uma tira de banda desenhada em que dois personagens olham para o anúncio de ‘Brokeback Mountain’ no cinema:
“– Yeesh, um filme de cowboys aos beijos!;
– Algures, John Wayne está a chorar...;
– John Wayne chorava?;
– Claro que não. Mas se o fizesse, estaria a chorar...”
Ang Lee é o realizador do já popularizado ‘filme dos cowboys gay’, uma expressão redutora – o mesmo que chamar ao ‘Padrinho’ o filme sobre a máfia – que ajudou à divulgação da obra entre um curioso público e ao constante aumento das receitas de bilheteira. No entanto, da mesma forma que o hábito não faz o monge, nem todos os chapéus e botas de cano alto fazem o ‘cowboy’, pois Ennis e Jack, os amantes da história, guardam ovelhas, não vacas.
O pormenor não invalida serem ‘cowboys’ clássicos na sua essência. Ennis, no olhar vazio, no mastigar das palavras que lhe saem a custo, enroladas num sotaque carregado, é mais real do que ícone; esse papel é o de Jack, constantemente a querer impressionar, abusando das poses que talvez tenha aprendido em velhos filmes de John Ford e Howard Hawks. Como os personagens maiores interpretados por John Wayne, não é movido por hesitações, sabe bem o que quer.
FACTOS E LENDAS
Mas John Wayne nunca quis fazer amor com outro homem. Actor e personagens confundem-se na mente da maioria dos norte-americanos quando recordam um ícone para os valores da tradição (a dos pioneiros brancos), família, coragem, honra, patriotismo e... conduta moral. O cinema já derrubara mitos e tabus, mas faltava, no tema dos ‘cowboys’, a ficção acompanhar a realidade. Basta ter em conta a popularidade do circuito de ‘rodeo gay’ no interior do país para provar que ‘eles’ existem.
Estamos perante o reverso da medalha na velha máxima de ‘O Homem Que Matou Liberty Valence’, de John Ford. Quando o senador Stoddard (James Stewart) revela que não fora ele mas sim o falecido amigo Tom Doniphon (John Wayne) quem matara o célebre bandido, um acto cuja falsidade lhe trouxera fama e lhe impulsionara a carreira política, o jornalista que ouve a confissão toma a decisão de ignorar a verdade: ‘Isto é o Oeste, senhor. Quando a lenda se torna facto, publica-se a lenda.’
Em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, Ang Lee ignora a lenda, ataca o mito de que os ‘cowboys’ não choram e, por tabela, acerta em John Wayne. Mais do que uma mensagem antigay, a tira do ‘Washington Post’ vale pela referência a este ícone da cultura norte-americana.
Se a fotografia não surpreende quem já viu outros filmes de Ang Lee, são as interpretações, credíveis e inspiradas, incluindo as personagens femininas – mas é Heath Leadger quem verdadeiramente carrega o filme às costas –, que agarram o espectador a uma ‘história de amor impossível’, isenta de esteriótipos, juízos de valor e contada com simplicidade.
Se a relação fosse heterossexual, se não estivessemos a falar de dois homens e sexo numa tenda, não haveria tanto falatório. Talvez Ang Lee precisasse de mais tempo de filme para tecer a teia que leva à mais badalada cena – catalisadora do resto do argumento –, sobretudo para delinear melhor as motivações de Ennis, um rapaz reprimido e soturno.
A GÉNESE DA HISTÓRIA
O conto original de E. Annie Proulx foi publicado na edição de 13 de Outubro de 1997 do ‘New Yorker’. Diz a autora que a ideia lhe surgiu no princípio daquele ano, num bar no estado de Wyoming, quando observou um velho peão de rancho, encostado a uma parede, cujo olhar fixo e triste não recaía sobre as belas mulheres em redor, mas sobre os jovens vaqueiros que jogavam bilhar.
Podia estar apenas a seguir o jogo, mas na mente de Proulx germinava outra história, sobre ‘a destrutiva homofobia rural’. Basta pensar que o Wyoming tem a maior taxa de suicídios dos EUA, em que predominam os solteiros de avançada idade.
OUTRO COWBOY DA MEIA-NOITE
A Focus Features lançou o filme através do conceito de ‘plataforma’, ou seja, começou por o colocar em poucas salas de cinema (apenas cinco) para criar um rumor que depressa se espalhou pelo país, ao ritmo das exibições da película. As boas críticas, associadas à vitória nos Globos de Ouro e às nomeações para oito Óscares fizeram o resto: globalizaram uma obra que recebeu nos EUA a classificação ‘R’ – menores de 17 anos só acompanhados por pais ou tutores. ‘O Cowboy da Meia Noite’ (1969), sobre um jovem que troca a ruralidade por Nova Iorque e cai na prostituição, foi o único filme com a antiga classificação ‘X’ (para adultos) a vencer o principal Óscar.
REALIZADOR DE TAIWAN
Ang Lee nasceu a 23 de Outubro de 1954, em Pingtung, na ilha de Taiwan, mas cedo rumou aos EUA para completar os seus estudos em cinema, tendo sido assistente de realizador de um estudante chamado Spike Lee. ‘Banquete de Casamento’ (1993), a história de um homossexual taiwanês, imigrante nos EUA, que se casa com uma mulher para agradar à família, deu-lhe fama internacional. ‘Comer, Beber, Homem, Mulher’ (1994) antecipou a fase ocidental, destacando-se ‘Sensibilidade e Bom Senso’ (1995), ‘Tempestade de Gelo’ (1997) e ‘Hulk’ (2003). Pelo meio, regressou à Ásia para criar ‘O Tigre e o Dragão’ (2000). Eis um realizador multifacetado.
Título original: ‘Brokeback Mountain’ (EUA)
Realizador: Ang Lee (foto)
Argumento: Larry McMurtry e Diana Ossana, baseado num conto de E. Annie Proulx
Intérpretes: Heath Leadger (Ennis), Jake Gyllenhaal (Jack), Michelle Williams (Alma), Anne Hathaway (Lureen)
Das 2500 ovelhas que surgem no filme, apenas 700 são reais. Após ‘Sensibilidade e Bom Senso’, Ang Lee jurara nunca mais trabalhar com aqueles animais.
- Lisboa – Amoreiras, Colombo, Vasco da Gama, Alvaláxia, Monumental, El Corte Inglés
- Porto – Cidade do Porto, Dolce Vita Porto
- Coimbra – Dolce Vita
- Faro – Fórum Algarve
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