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Correio da Manhã

Cultura
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O HORROR NÃO TEM FRONTEIRAS

Na peça "A Oração", de Fernando Arrabal, duas crianças brincam à vida de adulto, revelando o imenso prazer que sentem em praticar o Mal, através de brincadeiras aparentemente inocentes.
28 de Agosto de 2003 às 00:00
Miguel Moreira e Teresa Sobral são crianças cruéis no CCB
Miguel Moreira e Teresa Sobral são crianças cruéis no CCB FOTO: Manuel Moreira
Manuel Wiborg encenou - e mantém em cena até 4 de Setembro, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém - um texto da dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic que nos pinta um retrato da infância igualmente aterrador.
Durante duas horas, "Histórias de Família" mostra-nos, em cenas sucessivas, aquilo que podem ser vários jogos ou o mesmo (que se prolonga ao longo de dias), de quatro crianças que imitam a vida dos adultos, ou pelo menos a forma como a vêem.
Violência gratuita, ausência de quaisquer valores, caos total: as brincadeiras das crianças são um permanente exercício de crueldade e a "mensagem" é clara. O mundo que vamos legar às crianças é horrível e quando crescerem elas vão limitar-se a reproduzi-lo.
A mudança, a redenção, não são hipóteses colocadas por esta autora que, nesse aspecto, nos recorda o teatro de uma outra dramaturga muito jovem, entretanto já desaparecida: Sarah Kane.
Sobre a realidade sérvia, o espectador não ficará nem mais nem menos informado do que quando entrou na sala do CCB. O cenário pós-apocalíptico de Luís Mouro remete-nos para um país em guerra mas, infelizmente, não é coisa que falte por esse mundo fora. O horror não tem fronteiras e é universal.
Com um elenco muito empenhado (constituído por Teresa Sobral, Gracinda Nave, Miguel Moreira e Carlos António), "Histórias de Família" está bem feito mas é o anti-espectáculo de Verão.
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