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Correio da Manhã

Cultura
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O JAZZ QUE VEIO DO SERTÃO DO BRASIL

Se Moacir José dos Santos, pernambucano, esperou 75 anos por este disco - "Ouro Negro" (ed. Universal) - em que alguns dos mais importantes instrumentistas do seu país e mais meia dúzia de cantores sonantes se rendem à riqueza da sua música, pouco importa que o CD, duplo, chegue a Portugal com dois anos de atraso.
18 de Maio de 2003 às 00:01
O JAZZ QUE VEIO DO SERTÃO DO BRASIL
O JAZZ QUE VEIO DO SERTÃO DO BRASIL
Se há casos em que não cai mal falar na perenidade da música, na sua capacidade de atravessar fronteiras e décadas, estilos e modas, este é um grande exemplo. Sobretudo se tivermos em conta que a proximidade ao "jazz", sem perda de contacto com as raízes e com os respectivos frutos, até obrigou este velho maestro a emigrar para os Estados Unidos. Como aconteceu (episodicamente) com Jobim, com Aloysio de Oliveira, com Sérgio Mendes, até com um dos períodos difíceis de Milton Nascimento.
Diz a lenda que Moacir Santos passou a vida a fugir… em direcção à música. Órfão aos três anos, foi criado por uma família branca que lhe proporcionou a base musical que haveria de desenvolver exponencialmente a custas próprias. Do Recife até ao Rio, daí até Hollywood, acabando por fixar residência em Pasadena, Califórnia. Pelo caminho, fez de tudo um pouco (e não cabe aqui referir que teve até que servir praça como sargento da Polícia Militar…): da banda de baile ao posto de maestro e arranjador da Rádio Nacional, o caminho foi longo. E, verdade seja dita, desacompanhado pelos seus compatriotas durante largos períodos.
Apesar disso, quanta riqueza, no cruzamento de linguagens que, vindas do seu nordeste, foram ganhando e multiplicando cores com a pureza do samba e a excelência da Bossa Nova, com a busca das raízes “afro” ou com a descoberta dos “plenos poderes” das “big bands” norte-americanas. Moacir estudou, estudou sempre e foi espalhando talento: por filmes nativos e "yankees", por discos que, com a ajuda da Blue Note, chegaram a valer-lhe nomeações para o Grammy, foi professor reconhecido de ilustres como Paulo Moura, o grande João Donato, Bola Sete, Sérgio Mendes, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Sem nunca perder a simplicidade - basta ver que, ao longo de "Ouro Negro", ele vê recuperadas algumas das suas geniais criações, humildemente intituladas "Coisa" e que têm como "apelido" apenas um número… -, Moacir precisa, nas palavras do escritor Ruy Castro, de ser "reaprendido" e "merecido" pelos brasileiros, depois do "manto de silêncio" que o próprio Brasil fez cair sobre o seu nome. "Ouro Negro" prova que a esta música chamamos "jazz" apenas por conveniência de serviço. Porque aqui mora a África, aqui respiram as músicas urbanas do Brasil, em composições que apaixonam pela cadência, pelo rendilhado, pela alegria ou pela melancolia, mas a que se regressa com a certeza de que cada volta vai render um pormenor, um sublinhado, uma inflexão que escaparam na incursão anterior. A par de alguns dos grandes "arquitectos" sonoros americanos, Moacir nunca cansa, nunca agride, nunca foge.
Com uma larga percentagem de instrumentais - e lá estão as excepções de Milton Nascimento, Djavan, Ed Motta, Gilberto Gil, João Bosco e Joyce para confirmar a regra -, "Ouro Negro" é um daqueles discos que não cansa, outra possível banda sonora para "swinging lovers". Como disse, lapidarmente, Lúcia Guimarães (a de "Manhattan Connection"), este disco serve de prova que Moacir Santos é o "Duke Ellington" brasileiro. Ora, francamente, até parece mal não querermos conhecer um "duque", agora à mão de semear. E que não se esgota, nunca.
TOCA A TODOS
É o segundo disco "americano" de mestre PAOLO CONTE, 66 anos de vida, quase 30 de carreira a solo, uma das vozes mais carismáticas da canção italiana, autor de uma colecção que lhe vale um lugar único no "ranking" do seu país. "Reveries" (ed. Warner) é um álbum de releituras, carregadinho de obras-primas ("Aguaplano", "Novecento", "Come Mi Vuoi"), em arranjos "jazzy" a deixar brilhar a voz de "fumo" deste enorme criador. Raridade: edição portuguesa, o que muito se saúda. Venham mais muitos…
n Custa a crer que estes olhos caminhem a passos largos para o estatuto de sexagenários. Quatro décadas de carreira e, finalmente, é FRANÇOISE HARDY quem escolhe pessoalmente, sem imposições extrenas, algumas das suas favoritas. 23, nem menos, com surpresas e raridades, sempre em casamento feliz de melodias e palavras. Daí que se distinga, e já, "Messages Personnels" (ed. EMI-VC) como uma das compilações do ano, pelo auto-retrato e por viajar, sem sobressaltos, de 1967 a 2000. Mas que delícia!
TOCA E FOGE
Um pesadelo nunca vem só: depois de Eminem ganhar um Óscar, faltava o regresso desta bizarria chamada MARILYN MANSON. Mais personagem de filme de terror do que músico, não ata nem desata, abusa do ruído e do mau gosto, plagia (perguntem aos Rage Against The Machine) e faz versões desastrosas ("Tainted Love", dos Soft Cell). Ainda por cima vem aí, com este pavoroso "The Golden Age Of Grotesque" (ed. Universal) a tiracolo. Quem o quiser, que o compre. Mas, por favor, nunca o comparem a Bowie!
n Não é por ser do F.C. Porto (também não ajuda, mas enfim…), mas o CD dos Super Dragões, do "Porto Campeão" e do "orgulho em ser tripeiro" ultrapassa, por baixo, tudo o que poderia imaginar-se. Ele é a equipa, o "incendiar Lisboa", canções dedicadas a Pinto da Costa e a DECO, esta com relato e tudo. Tudo com uma produção abaixo do "nível médio da água do mar", mascarada de modernaça. Antes o insuportável homem do trompete que, ao menos, é genuíno. Indescritível. E, no entanto, isto vende-se…
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