Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
6

O LEITOR É ALGUÉM TÃO INTELIGENTE COMO NÓS

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez esteve três dias em Lisboa para promover o último livro lançado em Portugal. ‘Animal Tropical’ valeu-lhe um importante prémio hispânico: o Alfonso García-Ramos.
10 de Julho de 2003 às 00:00
- Correio da Manhã – O que representa este prémio por 'Animal Tropical'?
Pedro Juan Gutiérrez – Nada. Para mim, os prémios não representam absolutamente nada. O reconhecimento de um escritor e de um artista não vem com prémios.
– Qual o melhor reconhecimento?
– Ter o tipo de leitores e editores que eu tenho. Tenho editores já em dezasseis países que se vão convertendo em meus amigos, em cúmplices. Respeitam muito o que escrevo, são incapazes de mudar uma linha. Como jornalista, sabes bem do que falo. Vem um chefe de redacção e altera aqui e ali. E eu fui jornalista durante vinte e seis anos e sei bem o que isso é.
– Enquanto jornalista sentiu muito a censura do Governo?
– Em Cuba não há jornalismo de oposição. Sou jornalista oficial e, ou actuas desta forma, ou mandam-te embora do jornal. O que me estimula como escritor é saber que escrevo os livros com o coração, com calma, sem pressas, sem pensar nos leitores nem em nada.
– E os seus livros agradam mais aos homens ou às mulheres?
– (Risos) Excito mais as mulheres. Creio que há um processo de excitação e isso é terrível. Tenho mulher, sou e quero ser fiel – já fui muito infiel na minha vida. Mas a minha literatura é um pouco provocadora. Sempre me enjoou o escritor correcto. Não há que ver o acto sexual como um pecado.
– Então, sente-se diferente dos outros autores cubanos…
– Sim, totalmente. Não tenho nada a ver com a literatura cubana ou hispano-americana. Até por este tratamento um pouco mais sincero das relações humanas. Um escritor não pode ter tabus.
– Desde cedo que pensava tornar-se escritor?
– Desde adolescente. Escrevo poesia desde os treze anos. Escrevia poemas para as namoradas. Era perfeito. Dás um poema original a uma mulher e elas… aaah! (risos) E se acrescentas uma florzita de rua, nunca mais se esquecem de ti. Nunca falha! Sempre fui um pouco ‘cabroncito’!…
– Escreve sobre os problemas do quotidiano cubano. Mas controla-se nas críticas ao governo…
– Leiam Dostoyevsky, 'Crime e Castigo', e vejam se em algum momento se refere ao czar da Rússia. Leiam 'A Ilíada' e 'A Odisseia', e vejam se Homero fala do governo da época em que Ulisses estava a navegar pelo Mediterrâneo.
– Não o faz por medo ou respeito?
– Separo a política da literatura com muito cuidado. Se pões política num livro ancoras a obra a uma época determinada e ela envelhece. A literatura tem que ser mais universal, intemporal.
– O seus livros são muito autobiográficos. As histórias são reais?
– A realidade e a ficção misturam-se de uma forma terrível. Vivo perto de Centro Habava, num bairro muito intenso, trepidante. Aí, todos te oferecem sexo, rum, música, de tudo. É assim. E há uma crise económica muito forte, desde os anos noventa, que faz com que todos actuem como sobreviventes.
– A sua escrita é muito provocadora. É propositado ou natural?
– Não gosto de provocar gratuitamente. Um escritor deve estar na vanguarda da sociedade, aquilo a que Günter Grass chama de "consciência crítica da sociedade". A literatura deve ser um espaço de liberdade de pensamento.
– O Pedro Juan literário é muito 'insaciable' (insaciável)….
– (Risos) Por isso há um livro que se chama 'El Insaciable Hombre Araña'. É um homem que adora as mulheres, a bebida, a vida. Tenta conter-se mas é desesperado, insaciável.
– Como você?
– (Risos) Tenho que reconhecer que sim. Mas tento concentrar-me e estar tranquilo. Em 'Carne de Perro', na entrada, há uma frase que a minha mãe sempre me repetiu: "A tí te gustan las mujeres de orilla" ["Tu gostas de mulheres de margem" - tradução à letra]. Gosto de mulheres de "orilla", simples, vulgares, prosaicas, mais incultas, correntes… Não necessariamente putas.
– A literatura tem uma missão?
– Não há intenções secundárias, o objectivo é contar uma história. Mas o leitor é alguém tão inteligente como nós e não se lhe deve dar tudo mastigado.
– E o que espera dos leitores portugueses?
– Que se vão convertendo em meus cúmplices.
PERFIL
Cubano de 53 anos, Pedro Juan Gutiérrez foi soldado sapador, instrutor de ‘kayaks’, cortador de cana do açúcar, técnico de obras, jornalista.
Hoje, escritor e pintor, conta já com cinco livros escritos e publicados em vários países - ‘Trilogia Suja de Havana’, ‘O Rei de Havana’, ‘Animal Tropical’, ‘El Insaciable Hombre Araña’ e ‘Carne de Perro’ - os dois últimos ainda não publicados em Portugal.
‘Animal Tropical’, o último livro a ser lançado no nosso País, em Março (D. Quixote), valeu-lhe um importante prémio hispânico: o Alfonso García-Ramos 2000. Protagonista de grande parte da sua obra, o Pedro Juan escritor é em tudo semelhante ao Pedro Juan personagem dos livros: inquieto, provocador e extremamente sexual.
Casado pela terceira vez e pai de quatro filhos, Pedro Juan busca o mesmo que o herói dos seus últimos livros: uma vida mais tranquila.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)