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Correio da Manhã

Cultura
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O MAIOR ACTOR DE TODOS OS TEMPOS

Foi Stanley Kowalski em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’, Terry Malloy em ‘Há Lodo no Cais’, coronel Kurtz em ‘Apocalypse Now’ e Vito Corleone em ‘O Padrinho’. Mas, sobretudo, foi Marlon Brando, monstro sagrado ligado para sempre à história do cinema americano pós Segunda Guerra Mundial.
3 de Julho de 2004 às 00:00
Brando, por muitos considerado o maior actor de todos os tempos, morreu anteontem, em Los Angeles, após “doença prolongada”, aos 80 anos, deixando como legado o enorme talento expresso em mais de 40 filmes, nos quais fez questão de cumprir a sua regra: “A única coisa que um actor deve ao seu público é nunca o aborrecer”.
'UMA PROFISSÃO INÚTIL'
Nascido a 3 de Abril de 1924 em Omaha, no estado de Nebraska, filho de mãe alcoólica (actriz) e de pai mulherengo, Marlon Brando revelou desde cedo uma personaldiade rebelde que o levou a ser expulso de várias escolas. Foi, aliás, a determinação em fugir à disciplina paternal que o levou a Nova Iorque para estudar com Stella Adler no Actor’s Studio, a escola pioneira no ensino do Método de Stanislavsky – que consiste na interiorização da personagem – pela qual passaram também Paul Newman, Robert De Niro e Dustin Hoffman, entre outros.
Oito vezes nomeado para o Óscar, que venceu em 1955 (’Há Lodo no Cais’) e em 1972 (’O Padrinho’), Brando estreou-se no cinema em 1950 encarnando um paraplégico em ‘O Desesperado’: na preparação para o papel, o actor esteve ‘internado’ durante um mês num hospital para veteranos.
Arrogante mas com um talento inato – “a única razão porque estou aqui é porque não tive força suficiente para recusar o dinheiro”, disse à chegada a Hollywood –, Brando faria um ano depois de Stanley Kowalski, ao lado de Vivien Leigh em ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’, que em 1947 havia representado na Broadway. Foi a primeira de quatro nomeações consecutivas para o Óscar numa carreira ímpar durante a qual recusou a estatueta por ‘O Padrinho’ e conheceu a polémica com ‘Último Tango em Paris’.
No entanto, nos últimos anos, o seu brilhantismo foi ultrapassado por diversos episódios que marcaram a sua vida privada: o filho mais velho, Christian, matou o namorado da irmã, grávida, Cheyenne, que se suicidou aos 25 anos, e por várias disputas financeiras. Gastou fortunas no atol Tetiaroa, onde viveu, e exigiu quase 12 milhões de euros por aparecer alguns minutos em ‘Superman, o Filme’.
Mas para o homem que inspirou toda uma geração, afinal “ser actor é uma profissão vazia e inútil”.
FILMOGRAFIA
1950 ‘O Desesperado’
1951 ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’
1952 ‘Viva Zapata!’
1953 ‘The Wild One’
1953 ‘Júlio César’
1954 ‘Há Lodo no Cais’
1954 ‘Desirée, O Primeiro Amor de Napoleão’
1956 ‘A Casa de Chá do Luar de Agosto’
1956 ‘Eles e Elas’
1957 ‘Sayonara’
1958 ‘O Baile dos Malditos’
1960 ‘Cinco Anos Depois’
1960 ‘O Homem na Pele da Serpente’
1962 ‘Revolta na Bounty’
1964 ‘Os Sedutores’
1965 ‘Morituri’
1965 ‘Perseguição Impiedosa’
1965 ‘Sua Excelência, o Embaixador’
1966 ‘A Condessa de Hong Kong’
1966 ‘Um Homem sem Medo’
1967 ‘Reflexos num Olho Dourado’
1968 ‘Candy’
1968 ‘A Noite Do Último Dia’
1969 ‘Queimada’
1971 ‘Os Perversos’
1972 ‘O Padrinho’
1972 ‘Último Tango em Paris’
1976 ‘Duelo no Missouri’
1977 ‘The Godfather 1902-1959: The Epic’
1978 ‘Superman, o Filme’
1979 ‘Apocalypse Now’
1979 ‘Roots: The Nex Generation’
1980 ‘A Fórmula’
1989 ‘Assassinato sob Custódia’
1990 ‘Jericho’
1990 ‘O Caloiro na Mafia’
1991 ‘Cristóvão Colombo: A Descoberta’
1995 ‘Don Juan De Marco’
1996 ‘A Ilha do Dr. Moreau’
1997 ‘O Bravo’
1999 ‘Assaltantes de Primeira’
2001 ‘Apocalypse Now - Redux’
2001 ‘The Score - Sem Saída’
AS REACÇÕES DE TRÊS REALIZADORES PORTUGUESES
ANTÓNIO P. VASCONCELOS
“Um actor exemplar que mudou irremediavelmente a forma de representar, ao incrementar uma componente existencial e reflexiva que o cinema não tinha até ali. Era extraordinariamente criativo e muitas das suas cenas mais brilhantes surgiram por iniciativa própria. Viveu fora das normas convencionais. Era um homem de causas”.
JOAQUIM LEITÃO
“A melhor homenagem é recordar uma história. Em ‘Há Lodo no Cais’, de Elia Kazan, Brando teve um desempenho excepcional. Kazan tinha fama de ser formidável na direcção de actores e, por isso, quando alguém lhe perguntou o que fez para pôr Brando a representar daquela maneira, ele respondeu: ‘Nada, tive apenas de ficar calado’”.
JOSÉ FONSECA E COSTA
“Neste momento só posso lamentar a morte de um dos maiores actores de todos os tempos. Marlon Brando era um actor de recursos inesgotáveis e só por isso pôde interpretar determinados papéis, sobretudo os dramáticos como no filme ‘Há Lodo no Cais’, com a intensidade com que o fazia”.
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