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Correio da Manhã

Cultura
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O MELHOR FILME DE GUERRA

Apesar dos anos passados sobre a conturbada estreia, “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, continua a ser o melhor filme de guerra. Obra--prima, baseada no livro de Conrad, que resultou de árduas filmagens nas Filipinas e de um orçamento imenso - que obrigou o realizador a hipotecar a própria casa - volta agora aos cinemas, numa versão tratada digitalmente em que o cineasta recupera imagens que preferiu deixar de fora em 1979.
4 de Julho de 2002 às 21:30
Para a geração de apreciadores fanáticos - que viram o filme três ou quatro vezes e destacam particularmente as imagens de guerra - as novas cenas deveriam voltar para a gaveta. Imagens de soldados com Playmates, uma discussão política e um encontro romântico na plantação francesa e Marlon Brando a ler excertos da revista “Times”, ajudam a conduzir a história e a explicar o comportamento de algumas personagens, humanizando o filme, mas nada acrescentam à espectacularidade visual desta obra.

Mas para os espectadores menos batidos, que só viram “Apocalypse Now” no pequeno ecrã, o regresso às salas de cinema resulta numa experiência original.

Numa exibição de três horas e meia, Coppola mostra porque razão, passados mais de 20 anos, “Apocalypse Now” continua a ser o melhor filme de guerra: a imensidão das cenas em que os helicópteros americanos sobrevoam território inimigo ainda não foram igualadas; a criação do coronel Kilgore (interpretada por Robert Duval) continua a ser única e perfeita na sua dimensão heróica, em que mistura a loucura e a ousadia dos combatentes do Vietname e, tanto Martin Sheen como Marlon Brando constroem figuras de anti-heróis que resistem ao tempo.

“Apocalypse Now” é o filme que marca toda a obra de Coppola e congrega as suas mais diversas influências cinematográficas, que passam por Eisenstein, Ford, Kurosawa, Conrad, Visconti e até Shakespeare. Mas é também o retrato cruel de uma geração alucinada que encontrou no Vietname um bode expiatório para espraiar as suas desilusões e mágoas e suportar os riscos de surfar numa praia minada ou combater sob o efeito de um comprimido de ácido.

Quanto à frieza com que Coppola filmou a natureza e a promiscuidade com que montou grandes planos em contraluz com imagens de imensas paisagens luxuriantes criam o efeito de descida aos infernos, que atemoriza e emociona ao mesmo tempo. A isto soma-se uma banda sonora acutilante que reúne a majestade de “Valquírias”, de Wagner, com o psicadelismo de “The End”, dos Doors, e temos um filme de culto, indispensável a todos os cinéfilos.

Aplaudido e criticado, “Apocalypse Now” causou furor em Cannes, em 1979, onde venceu a Palma de Ouro depois de uma estreia apoteótica. Mas nos EUA, apesar das oito nomeações para os Óscares, perdeu a estatueta para melhor filme para o melodramático “Kramer Contra Kramer”

São essas razões que tornam esta versão obrigatória. Não a novidade.
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