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Correio da Manhã

Cultura
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O meu Lego eram as bobines

Pedro Vasconcelos (empresário) dá o sorriso por um seguro de saúde na TV. Herdou do pai, cineasta, o gosto das histórias. E escreveu a primeira.
19 de Novembro de 2005 às 00:00
O meu Lego eram as bobines
O meu Lego eram as bobines FOTO: Vitor Mota
-Correio da Manhã – Qual a ideia na origem deste ‘1613’?
-Pedro Vasconcelos – A ideia original do romance surgiu da leitura de um documento no Instituto Camões de Díli, em Timor, onde cheguei com a ideia de um trabalho regular que, rapidamente, deu lugar a investigação histórica, na biblioteca e no terreno, que me levou um pouco por todo o lado. Procurei, inclusive, a Fortaleza de Solor de que falo no livro e que no século XVII ficava em território timorense, hoje, indonésio... Este documento, do comandante Humberto Leitão, é sobre um português que resiste aos holandeses e se apaixona por uma indiana.
- Aventura histórica com aventura romântica dentro. E onde é que entra a ficção?
- A não-ficção é a história de se ser português: um homem sozinho a defender uma fortaleza do outro lado do Mundo sem meios físicos nem humanos e que faz tudo isso em nome da honra e do orgulho militar. A ficção é eu ter inventado que ele se apaixona pela sobrinha do ‘raja’ e que é amiga do feiticeiro local e... Adoro contar histórias, desde as que aconteceram até às que podiam ter acontecido! Herdei isso do meu pai e do meu avô, mas, sobretudo, da vivência de viajante errante a quem até a mochila pesava, o que durou até ao nascimento dos meus filhos.
-A questão é prosaica mas tem de ser: e vivia de quê?
- Pois... O que me animava era ter data de partida mas não de chegada. Fui para o Zaire com um bilhete de ida de 45 dias e voltei cinco anos depois. Entre o primeiro e o último dia, fui motorista de jipe no mato, mestre de obras, comerciante de café, de transportes fluviais e também do sal que chegava ao Zaire vindo da Namíbia...
-‘Puxou’ ao pai, o cineasta António Pedro Vasconcelos, no sentido de ter uma visão cinematográfica do livro?
- Vou contar-lhe uma coisa que nunca contei nem mesmo ao meu pai, mas lá vai: houve uma altura em que ele trabalhava muito na Tobis e montava lá os seus filmes. Enquanto isso, eu ia até à sala de montagem e por lá ficava à espera, a ver, a brincar com os restos das bobines. O meu Lego eram as bobines... E acho que me ficou daí um certo ritmo da montagem. De facto, escrevo um livro como se estivesse a ver um filme, com alguma brusquidão da mudança de plano.
- Podemos esperar parceria?
- Isso é uma questão terrível e o meu pai é um lutador para conseguir contar as histórias dele através do cinema. Portugal tem a dimensão que tem e este ‘filme’ não é para ser feito cá. Não há meios para isso. Em contrapartida, há a possibilidade de, com o ICAM, fazer desta história um desenho animado e aí, quem sabe, não acontece a tal pareceria com o meu pai na realização, assim ele aceite... É que o desenho animado permite construir um épico ao preço de uma paisagem!
- E livros na gaveta?
- Tenho um, o primeiro tentado, suspenso até ser o momento certo, o que não será tão cedo. Ele precisa de fôlego e eu de força. Estou de ano sabático pelo sonho de poder viver das minhas histórias.
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