O melhor do êxito na carreira de Bruce Springsteen, do culto alimentado com ‘Born To Run’, ‘Darkness On The Edge Of Town’ e ‘The River’ à idolatria planetária alcançada com ‘Born In The USA’ e com o múltiplo álbum ao vivo ‘Live 1975-1985’ (três CD, cinco discos de vinil), resume-se a isto: o homem passou a ter oportunidade e absoluta liberdade para escrever, trabalhar, guardar, reinventar, reunir as suas canções.
Por outras palavras, passou a fazer parte do núcleo de eleitos que, não tendo mais nada que provar, pode seguir o compasso produtivo que lhe ditam o coração e a consciência. Hoje, com Bruce Springsteen cada vez mais longe da condição de herói de ‘teenagers’, com o ‘Boss’ a viver tranquilamente os seus 55 anos, dispomos da garantia de cada disco novo que assine não é necessariamente uma ‘prova de vida’ para efeitos de segurança social.
‘Devils & Dust’, o álbum recém-chegado e que justifica a sua segunda digressão a solo (a estreia surgiu na sequência de ‘The Ghost Of Tom Joad’, lançado há precisamente dez anos), vale outro salto no percurso nada rectilíneo de Springsteen: depois de ‘Tom Joad’, ele deixou correr o marfim, com raridades (’Tracks’) e tesouros incontornáveis (’The Essential’), antes de aportar ao disco da estupefacção e dos punhos cerrados, o magnífico ‘The Rising’.
Passaram os anos, ficaram algumas canções antigas, juntaram-se-lhe outras que o autor situa por alturas do início da guerra no Iraque, um marco para um operário das cantigas como Big Boss Bruce – ao mesmo tempo que sente o estilhaçar do sonho americano e vê esfumarem-se algumas das tradições dos seus compatriotas, ele não reconhece a atitude de um país que, apesar de tudo, é aquele em que nasceu, cresceu e se afirmou.
Fica posta de parte a hipótese de um álbum de combate, puro e duro. Dir-se-ia mesmo que, na atitude mais do que na estética (apesar da harmónica, da ‘pedal steel’, do ocasional violino), este é dos álbuns de Springsteen que mais se aproxima do padrão de Bob Dylan. Sobretudo, porque o autor refinou a sua faceta de contador de histórias que partem, sempre ou quase, do individual para o colectivo - só é preciso saber escutá-las como elas merecem… Do ponto de vista musical, trabalhou primordialmente em trio: as guitarras são para uso próprio, o baixo para Brendan O’Brien, a bateria para Steve Jordan, vindo tudo o resto por acréscimo, sem grandiloquência nem espalhafato.
Talvez por isso este ‘Devils & Dust’ também traga à memória o intimismo de ‘Nebraska’, outra pérola do longo currículo do autor. Talvez por isso seja inevitável estacar frente ao crescendo do tema-título (primeiro verso: ‘I got my finger on the trigger’), à força crua de ‘All The Way Home’, às raízes expostas de ‘Reno’, arrepiante, ao balanço gutural de ‘Long Time Comin’, à fluência de prosa de ‘Black Cowboys’, à dolência inquieta de ‘Silver Palomino’, ao classicismo da obra-prima que é ‘Jesus Was An Only Son’, à violência de ‘The Hitter’, ao final em brisa sufocante que é ‘Matamoros Banks’. Fica-se parado, a ouvir com atenção. E pensa-se: o que ele andou para aqui chegar. Chegou bem, é o que mais importa a quem ouve e não esquece.
Reconheço que parti para o disco, ‘Everybody Loves A Happy Ending’, com enormes desconfianças: os rapazes TEARS FOR FEARS (Roland Orzabal e Curt Smith) não trabalhavam juntos desde 1989, as memórias acumuladas (de ‘Mad World’ a ‘Everybody Wants To Rule the World’, de ‘Shout!’ a ‘Sowing The Seeds Of Love’) faziam pensar numa ressurreição interesseira. Nada disso: o álbum é leve, menos carregado de electrónica, cheio de canções certeiras. Um bom álbum dos Beatles… sem Beatles. Gostei mesmo.
Desconheço se SARAH BETTENS se zangou com o irmão antes de pôr fim à carreira dos K’s Choice, um dos poucos nomes belgas que atravessou fronteiras. Aquilo que posso afiançar é que este ‘Scream’ (não se assustem, que a dama não desatou a berrar depois de gastar anos a mostrar uma bela voz, estranhamente parecida com a de Tracey Thorn) é um álbum seguro, de múltiplas pistas: ‘pop’, ‘funk’, ‘rock’, canção pura, acústicas servem um pressuposto comum. Para simplificar, chamar-lhe-ia bom gosto.
Os atributos que, sem erro, devem reconhecer-se a António Manuel Ribeiro são persistência e energia. Infelizmente, essas qualidades não chegam para que as canções ultrapassem uma mediania repetitiva, que dificilmente acrescentará algo ao passado dos UHF, que chegou a ser realmente glorioso e digno de culto. Hoje, quando se ouve ‘Há Rock No Cais’, retêm-se meia dúzia de linhas de texto e uns quantos ‘riffs’ de guitarra. É escasso para o disco ser recomendável. Por mim, confesso, tenho pena.
Quando as cantoras adoptam o ‘nu artístico’ para as fotos de capa e dos encartes dos CD, é quase sempre caso para desconfiar. Com LARA FABIAN e ‘9’, o juízo confirma-se: quanto mais exposta, mais se lhe nota a falta de ideias. O que é ainda mais irritante se pensarmos que, por um lado, a música em francês quase não tem expressão por cá, dispensando subprodutos, e, por outro, aqui mora uma voz que merecia melhor sorte. Leia-se: boas canções e uma alma própria. Variedades, no pior dos sentidos.
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