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Correio da Manhã

Cultura
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O SOBRINHO DE HENDRIX

Convenhamos que nem todos os ouvidos são capazes de absorver a música de sete grupos numa noite só. Sem grandes nomes no cartaz, o segundo dia do Festival do Ermal acabou por se tornar numa maratona de rock bastante morna. Das cinco da tarde às duas e tal da manhã, cerca de cinco mil almas metaleiras passaram pelo certame que terminou esta madrugada.
28 de Agosto de 2004 às 00:00
Orvalhava quando o sobrinho de Jimi Hendrix – não lhe falem nisso que ele não gosta – entrou em cena, sentindo-se na pele de um diabinho com guitarra na mão e espírito de animador circense. Irónico, comunicativo, destilou blues, rock, metal, acompanhado por baixo e bateria. Cabelo rapado, argolas nas orelhas e o maxilar superior desdentado, Danko Jones mostrava-se um exímio guitarrista e um poderoso apologista do sexo livre.
A noite terminaria com os Xutos & Pontapés, o mesmo elogio às guitarras, a mesma linguagem acessível. Aquele som eléctrico rasgou a noite, provocando um fenómeno de identificação que sobrevive graças a uma lendária história de autenticidade, transparência, ausência de eloquência e de sofisticação. Como se, passados 25 anos, continuasse a ser primeira vez...
DANÇA DA VIRILIDADE
“Ouvimos dizer que o pessoal está a precisar de peso e nós não os vamos desiludir”, anunciaram os The Temple ao abrirem a segunda etapa do evento. Com temas do recente ‘Diesel Dog Sound’ e uma maturidade – herdada de sete anos de palcos, evidenciada em temas como ‘Drum’, satisfizeram a malta presente.
O mesmo não se pode dizer dos setubalenses More Than A Thousand, que trouxeram interpretações entre o scremo e o hardcore/metal altamente selvagem, e melodias vocais raramente melodiosas. Entre berros e alvoraçados rodopios, levaram a que uma dezena de jovens se entregassem ao ‘mosh’ – espécie de dança da virilidade – enquanto algumas meninas faziam questão de mostrar que sabiam as imperceptíveis letras de cor e salteado.
Também o concerto dos Bizarra Locomotiva não correu tão bem como se esperaria. Com fatos espaciais, os músicos-máquinas-andróides alternaram temas em inglês e português, com uma postura que ora lembrou um ‘Homem-Máquina’, ora um ‘Cavalo Alado’, ora um ‘Gato do Asfalto’.
A noite caia, um casal beijava-se nas águas tépidas, quando, pela primeira vez em Portugal, começou a soar o doom dos britânicos Cathedral, do mítico Lee Dorrian, com a compilação ‘Serpent’s Gold’ na bagagem e um espectáculo baseado em sonoridades que fizeram lembrar os Black Sabbath.
Quando terminou o concerto dos holandeses The Gathering e o seu trip-rock, muitos davam ênfase ao facto da voz feminina, da atmosfera soturna e da delicadeza dos instrumentos, ter sido um alívio para os ouvidos. Ou seja, um erro de ‘casting’ que acabou por ser um autêntico bálsamo para os que facilmente trocam o metal pelos sons experimentais e planantes.
A MAIS GRÁVIDA
Catarina Almeida, de Minde, Torres Novas, está prestes a dar à luz o Vasco, que se vislumbra grande, forte e saudável. Depois de, há quatro anos, uma semana após o Paredes de Coura, ter tido a primeira filha, Catarina – que exibia tranquilamente a enorme barriga –, descansa já da azáfama de ter trabalhado em todos os festivais de Verão. Em visível boa forma, em cada uma das noites vendeu cerca de 500 pães com chouriço feitos em forno a lenha. Quanto ao público do Ermal, considera, “é mais pobre do que o dos outros festivais. Estão sempre a pedinchar”.
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