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Correio da Manhã

Cultura
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O TRIUNFO AMERICANO

A 23 de Março de 2003, Michael Moore subiu ao palco da 75.ª edição dos Óscares de Hollywood para receber o prémio de melhor documentário, proferindo um discurso tão duro quanto inesperado: "Tenha vergonha Mr. Bush. O Papa e todos estão contra si". Com estas palavras, silenciadas apenas pelo som da orquestra, o realizador de 'Bowling for Columbine' pôs o Kodac Center em polvorosa, revelando aquilo que muitos compatriotas pensavam mas não tinham coragem de dizer: a então hipotética ofensiva no Iraque dividia o país, com milhares de pessoas do lado de uma intervenção mais política e menos belicista.
4 de Janeiro de 2004 às 00:00
O fantasma do 11 de Setembro continuava vivo na memória, e os medos e fobias de toda uma nação vinham à superfície. Nesse aspecto, 2003 ficará marcado, do ponto de vista cinematográfico, como o ano da catarse, da expiação dos problemas de uma sociedade que não sabe se o inimigo espreita à esquina.
'A Última Hora', de Spike Lee, mostrou um Edward Norton a viver as últimas horas de liberdade e, no meio de todo o enredo, lá estava a alusão à queda das Torres Gémeas, já fora do enquadramento da cidade mais vezes filmada pelo realizador negro. Martin Scorsese optou por uma abordagem diferente, ao prestar homenagem à 'Big Apple' com o épico 'Gangs de Nova Iorque', Clint Eastwood mostrou o lado negro e sem redenção da metrópole em 'Rio Místico' e Gus Van Sant filmou de forma crua e despojada o massacre num liceu norte-americano (é a história da tragédia de Columbine, apesar da ausência da referência geográfica).
Em todos eles existe um olhar para dentro, para os demónios interiores, e todos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, são marcados pelo génio. No conjunto, provaram ter-se falado cedo de mais dos possíveis efeitos nocivos dos atentados sobre a 7.ª Arte. Afinal, a criação artística poucas vezes foi tão rica em quantidade e qualidade.
Prova disso, outros filmes mostraram que 2003 marcou o triunfo norte-americano em termos cinematográficos. Quentin Tarantino regressou após vários anos de silêncio e revelou 'A Vingança', primeira parte de 'Kill Bill', povoado por referências ao 'gore' e aos filmes de arte marciais da década de 70.
Steven Spielberg esteve em alta ao realizar 'Apanha-me se Puderes', baseado em factos verídicos, com o qual provou continuar a ter talento para conceber puro entretenimento, e Stephen Daldry fez 'As Horas', que valeu o Óscar de actriz principal a Nicole Kidman. Jack Nicholson não foi galardoado pela Academia mas esteve excelente em 'As Confissões de Schmidt', num ano marcado pelo fim da trilogia de 'O Senhor dos Anéis', uma epopeia incontornável assinada por Peter Jackson.
Nas sequelas, os únicos pontos negativos estiveram em 'Matrix', com dois episódios que ficaram aquém das expectativas. Representou a única mancha no fantástico cinema vindo este ano dos 'States'.
Ainda no panorama internacional, destaque para o divertido e inteligente 'Adeus Lenine!', do alemão Wolfgang Becker, para o negro 'Estranhos de Passagem', do inglês Stephen Frears, e para o violento e verdadeiro 'Cidade de Deus', do brasileiro Fernando Meirelles.
Em matéria de produção nacional, o ano ficou marcado pelo 'requiem para um génio' que foi 'Vai e Vem', do falecido João César Monteiro, para 'Um Filme Falado', do mestre Manoel de Oliveira, e para o muito bem concebido e contado 'Os Imortais', de António-Pedro Vasconcelos. Cláudia Tomás revelou talento em 'Nós', enquanto José Fonseca e Costa fechou o ano com 'O Fascínio'.
Por tudo isto, se não for possível fazer melhor, pelo menos que 2004 seja tão bom em matéria de cinema como o ano que agora findou.
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