OS COMPANHEIROS DA MELANCOLIA

Custa a acreditar que esteja prestes a cumprir-se uma década, inteirinha e longa, sobre a edição do disco de estreia dos Tindersticks, que deixaram meio-mundo em aflições para descobrir onde havia de "arrumá-los" e que, sem "pré-aviso", haveria de ser escolhido como álbum do ano de 1993 pelo jornal "Melody Maker", deixando para trás toda a concorrência.
13.07.03
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No momento em que chegam ao sexto registo de estúdio, sendo necessário "descontar" as colectâneas (como a assinalável "Don-keys 92-97", a que não faltava sequer uma apaixonante versão de "I've Been Loving You Too Long", de Otis Redding), as gravações ao vivo (uma das quais, desculpe-se o orgulho bairrista, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, passada de "pirata" a "oficial") e um par de excelentes bandas sonoras ("Nénette et Boni" de 1996 e "Trouble Everyday" de 2001), já não interessa a ninguém saber a que "tribo" musical pertence o grupo de Nottingham. É que, diante da excelência doída das canções que assinam, a única resposta, a única decorrência inevitável é mesmo ouvi--las, sem outra preocupação que não seja o mergulho sem medos neste universo que, evocando uns quantos, há muito deixou transparecer uma personalidade própria e, com todos os riscos que tal juízo comporta no universo "copycat" da música popular, inconfundível.
Quem se decidir a abordar "Waiting For The Moon" (ed. Farol), não corre riscos de desilusão. A banda continua a fugir do "ruído" como gato de água fria, não querendo isto significar que – como acontece em "4.48 Psychosis", uma das canções--chave do álbum – não se façam ouvir os "riffs" de guitarra que ajudam a situar os Tindersticks nos dias de hoje. Mas não há excessos, não há gratuitidade nos momentos em que se carrega o volume: afinal de contas, seria difícil falar de uma psicose num ambiente de "vinho e rosas"… Depois, como se lhes tornou habitual, os Tindersticks não hesitam em recorrer a uma superior técnica de preenchimento sonoro, não só permitida mas sugerida pelas melodias mais intimistas: a presença de uma orquestra que, de resto, à semelhança dos próprios instrumentistas do grupo, não está aqui para se exibir mas para servir a superior causa das canções. Enfim, há a voz de Stuart Staples, o perturbado e perturbador líder do sexteto, capaz de adicionar o tempero final a cada tema com a sua voz grave (barítono, presumo) e com uma espécie de vibração que faz dele o grande "crooner" dos tempos modernos.
Em "Waiting For The Moon", ressalvados os momentos de excepção, há uma quietude (noutros tempos talvez tivéssemos a ousadia de lhe chamar um disco de "slows") que nunca se confunde com serenidade. Porque os amores de Staples, vividos ou "interiorizados", nunca são lineares e – pressente-se – talvez não tenham finais felizes. Há uma dose latente e considerável de melancolia latente em canções como "Until The Morning Comes" (e, a propósito, convirá acrescentar que, mais uma vez, este disco atinge o rendimento pleno se for consumido à noite), "Sweet Memory", "My Oblivion", "Running Wild" ou "Trying To Find A Home". Mas, se fosse preciso eleger uma favorita, optaria por "Sometimes It Hurts", em que Staples se lança num emocionante diálogo com a cantora Lhasa de Sala, abrindo novas perspectivas para o futuro. No todo, será pecado ignorar mais esta obra-prima. Até porque, já se sabe, o belo e o triste andam muitas vezes de mãos dadas…
TOCA A TODOS
A festa começa esta noite (13), na Figueira da Foz. JANE MONHEIT, a maior revelação do "jazz" feminino nos últimos anos (que me desculpem Diana e Norah…) está de volta. Com ela vem o brasileiro Ivan Lins, mestre da MPB e um dos autores favoritos da jovem "diva". Os espectáculos – o segundo é no sábado, 19, na Aula Magna de Lisboa – dividem-se em três partes: primeiro, a banda dela; segundo, o grupo dele; terceiro, ambos, juntos e ao vivo. São concertos para marcar a temporada, a não perder.
n Quem tenha andado distraído ao ponto de ignorar um grupo chamado October Project, que deixou algumas marcas contra-corrente nos anos 90, tem agora uma oportunidade de se redimir: é que a voz imaculada e profunda de MARY FAHL se estreia a solo num notável "The Other Side Of Time" (ed. Sony Music), que vai da influência irlandesa a Donizetti, das alusões árabes ao "espírito" de Joni Mitchell. Ambientes de respiração, quase perfeitos, lindos de arrepiar. Como, de resto, a própria dona da voz.
TOCA E FOGE
Quando se esperava o salto em frente de MICHELLE BRANCH, depois das boas pistas de "The Spirit Room", a mocinha desata a baralhar-se, deixando que lhe carreguem a produção e que lhe atropelem a voz e a simplicidade dos textos. Em "Are You Happy Now?" gostava de ser Alanis Morissette, em "One Of These Days" o modelo é Belinda Carlisle, em "Love Me Like That" é ofuscada no dueto com Sheryl Crow. O melhor de "Hotel Paper" (ed. Warner) é mesmo "The Game Of Love", com Carlos Santana. Tudo dito… n Sou sincero: gostava de gostar de "La Pop End Rock" (ed. EMI-VC), uma "obra ficcionada sobre a carreira oficial e a vida não documentada dos UHF". Pelo que o grupo representou na afirmação de uma cultura "rock" portuguesa, pela persistência de António Manuel Ribeiro, pelo legado de boas canções – as mais simples… – no percurso da banda. Mas tudo soa "barroco" e pretensioso, desligado e sem adrenalina que justifique tanta pompa e circunstância. O desfecho é um bocejo. Um deslize, quero crer.

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