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Correio da Manhã

Cultura
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OS MESTRES DA IMAGEM SONORA

Há quem defenda que, com a 'limitação' a uma história e a um encadeamento de imagens, o 'videoclip' contribuiu para minorar a imaginação 'infinita' que uma canção poderá – e deverá – proporcionar a quem a ouve, sendo-lhe permitido 'desenhar' mentalmente o seu próprio 'filme'.
4 de Janeiro de 2004 às 00:00
Não estou de acordo, até porque descobri um prazer autónomo na arte (que, reconheço, também é uma necessidade industrial) dos 'clips'. E há canções que, se calhar, ainda trago na memória em função das imagens que 'arquivei', mais do que por mérito de uma melodia tocante, de um ritmo avassalador, de uma interpretação histórica. Basta separar as águas.
Um dos casos que deixo em destaque, nesta primeira semana de 2004, é categórico: Michael Jackson dificilmente teria chegado a fazer de 'Thriller' o marco histórico se não fossem as coreografias, os efeitos especiais, a iluminação, os tempos extra, os argumentos autónomos de alguns dos seus vídeos. Não tão dependentes da imagem, mas aproveitando-se dela para a lapidar construção de um 'look' que mudou muito menos do que a música, também os Pet Shop Boys tiraram partido deste apoio, deste complemento, desta lógica complementar que há em passar uma canção a uma curta-metragem.
Vamos por partes: 'Pop Art – The Videos' (ed. EMI-VC) é uma forma de fazer regressar do fundo do baú estes alquimistas da 'pop', que desprezaram os preconceitos e desrespeitaram as fronteiras (por exemplo, ao gravarem versões de Elvis Presley e dos Village People) e que estenderam a perícia laboratorial da música aos recados que há no vídeo. Basta recordar os sublinhados que há em hinos como 'Suburbia', retrato triste e esfumado de uma realidade percorrida a pé, como 'Domino Dancing', num momento alto de sensualidade e ambiguidade, como 'Always On My Mind', irónico e lapidar, como 'Se A Vida É (That's The Way Life Is)', a que nem o erro de tradução rouba o perfume tropical.
No total, são três horas para 41 'clips', todos eles susceptíveis de serem seguidos com comentários da banda, formada pelo genial Neil Tennant e pelo sorumbático Chris Lowe, o homem que (quase) nunca sorri. Destaque natural para a curiosidade de dois 'clips', os de 'It's A Sin' e 'Rent' serem realizados por Derek Jarman, um dos mais conceituados cineastas alternativos britânicos.
Já Michael Jackson não avança com um extra, um bónus que seja em 'Number Ones' (ed. Sony Music), talvez em resultado das más relações com a sua casa editora. Ainda assim, é bom reencontrar alguns dos momentos históricos de 'Jacko', com destaque para as versões longas de 'Thriller' e 'Black or White', ambas dirigidas por John Landis. Mas há mais: quem se lembra que o 'clip' de 'Bad', uma das grandes canções e uma das melhores coreografias de Jackson, foi realizado por Martin Scorsese, nada menos? E é divertido ver Marlon Brando nestas andanças noutro 'longo', o de 'You Rock My World'. Compare-se a sofisticação e o cuidado da fase que arranca com os temas de 'Thriller' e vai em crescendo com a ingenuidade 'kitsch' dos 'clips' que servem 'Don't Stop 'Til You get Enough' e 'Rock With You'. Mesmo a seco, sem 'prendinhas', este DVD é uma lição. Até para se perceber como a cara e a cor de Jackson foram mudando com o tempo…
Mas, sobretudo, porque ele se revela um grão-mestre das imagens sonoras. Dura e hora e meia. Vale muito mais do que isso.
TOCA A TODOS
- Continuamos com os DVD: 'Live At The Hollywood Bowl' (ed. EMI-VC) é rigoroso e aliciante a mostrar quanto vale um espectáculo de BEN HARPER. E tanto interessa aos que nunca o viram em palco, apesar de as várias visitas a Portugal, como aos que já experimentaram um 'performer' que se transcende (basta conferir o CD 'Live From Mars'). Quase duas horas da música 'de síntese' a que se juntam extras como a filmagem de um ensaio, uma viagem ao 'backstage' e dois "videoclips'. E os hinos não falham…
- 'The Reel Me' (ed. Sony Music) ensaia o 'dois-em-um' para JENNIFER LOPEZ. De um lado, o CD: seis músicas, incluindo remisturas e a participação de LL Cool J. Do outro, o DVD que reúne a colecção de 'clips' que servem de roteiro à carreira de JLo. Confesso: até em canções que não são de primeira água, há um magnetismo qualquer nesta mulher que canta, dança e utiliza, sem pudores, o seu 'corpo de delito'. De antologia, o 'remake' de 'Flashdance' num par de minutos. É apenas uma das boas ideias.
TOCA E FOGE
-ão conheço quem goste mais dos ROLLING STONES do que eu. Pela simbologia e pelas canções. Pela atitude e pela guitarra de Keith Richards. Mesmo assim, aquilo que se arrisca em 'Four Flicks' (ed. Warner) parece-me um exagero: quatro DVD com três variantes diferentes de 'show' (estádio, pavilhão e 'teatro', chamemos-lhe assim) mais um documentário, num total que vai além das nove horas (!). Cansa, posso testemunhar. Valham-nos os múltiplos extras e o brilho da gravação. Mas é tudo excessivo…
- Outro caso que intriga: mesmo com a resistência ao tempo demonstrada, s FLEETWOODMAC precisariam, para se tornarem empolgantes, de algo mais do que o registo, montado para durar cerca de uma hora, de dois espectáculos californianos realizados há… 16 anos. Nesta versão DVD de 'Tango In The Night' (ed. Warner), as canções, que não coincidem com as do álbum, oscilam de qualidade. E sente-se muito a ausência da guitarra de Lindsay Buckingham. Não haveria forma melhor de 'embrulhar' a coisa?
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