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Correio da Manhã

Cultura

Ouvi Amália durante anos

Lhasa de Sela nutre uma paixão especial por Portugal. Conhece Amália, Camané e Carlos Paredes. A sua música abraça o mundo inteiro. Hoje, actua em Famalicão.
7 de Dezembro de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Este ano já deu seis espectáculos em Portugal. Que memórias guarda?
Lhasa de Sela – O primeiro em Lisboa, em Julho, foi mágico. Foi uma surpresa, porque não contava que as pessoas conhecessem as minhas músicas. Nessa noite apaixonei-me por Portugal. Aqui, o público compreende a música de uma maneira muito especial.
– Surpreendeu tudo e todos ao interpretar ‘Meu Amor, Meu Amor’, de Amália Rodrigues. Como é que descobriu o fado?
– Devia ter 15/16 anos quando vi um CD da Amália numa loja em São Francisco. Disse logo que ela devia ser uma grande cantora pela forma como aparecia na fotografia do disco. Estava tão bonita e com um ar tão calmo [risos]. A minha mãe já a conhecia e foi ela que me convenceu a comprar o disco. Disse-me que tinha passado a juventude a ouvi-la.
– Lembra-se que disco era?
– ‘Vinte Grandes Êxitos de Amália’; um disco que ouvi durante anos. Decorei quase todas as músicas e durante muito tempo cantei-as só para mim, especialmente ‘Estranha Forma de Vida’.
– O que conhece mais do fado?
– Já ouvi fado de Coimbra e conheço também o Camané.
– Entre os instrumentos que constam dos seus espectáculos conta-se o cavaquinho tipicamente português. Como é que o descobriu?
– Foi a minha violoncelista que o descobriu em Coimbra, em Julho. Comprou-o porque achou o som muito bonito. Depois, começou a introduzi-lo pouco a pouco na música e agora até está a ter lições. Eu adoro. Aliás, adoro o som da guitarra portuguesa. Carlos Paredes é surpreendente.
– Passou parte da infância a viajar. Como é que isso influenciou a sua vida?
– Vivi e cresci muito na minha cabeça. Comecei a ler e a escrever poemas ainda muito jovem, com seis ou sete anos. Para além disso, a música sempre foi muito importante para mim, porque não tínhamos televisão. Só entrei para a escola aos nove anos. Por isso, acho que desenvolvi muito a minha imaginação. O facto de ter andado sempre a viajar acho que me tornou uma pessoa mentalmente livre.
– Já tem novas canções?
– Sim, mas ainda não sei para quando será o novo disco. Vamos estar em digressão até ao final do próximo Verão e depois vou tirar umas férias.
– E escrever um fado?
– Não tenho esse pretenciosismo. Posso ser influenciada por ele, mas não seria capaz de escrever um fado. É uma coisa muito portuguesa. Seria como tentar escrever flamenco. Talvez um dia eu venha viver para Portugal e tente escrever um fado ao fim de dez anos [risos].
PERFIL
Filha de uma norte-americana e de um mexicano, Lhasa de Sela nasceu em 1972 em Big Indian, uma pequena localidade entre as Montanhas Catskill, no estado de Nova Iorque, Estados Unidos. Desde cedo aprendeu a ser nómada por ter viajado durante a infância pelo seu país e pelo México. Por isso, o seu universo musical remete para a música do Mundo. Assim o provam os álbuns ‘La llorna’, de 1997, e o mais recente ‘The Living Road’.
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