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PARABÉNS, EUGÉNIO!

Há festa na aldeia e, não desfazendo no padroeiro, S. Sebastião, amanhã o dia é de Eugénio de Andrade, passados que são oitenta anos de vida do filho da terra que havia de a traduzir por “gente que trabalhava a pedra e a terra”.

18 de janeiro de 2003 às 00:00

No mesmo ano em que nascem Cesariny, Couto Viana ou Natália Correia nasce, nesta aldeia da Beira Baixa, entre o Fundão e Castelo Branco, José Fontinhas. E José Fontinhas ficou por pouco mais de 16 anos, nascendo então o poeta e, com ele, Eugénio de Andrade.

Criança de índole doce e temperamento determinado, aprende no “amor vigilante e sem fadiga” da mãe que poucas coisas há de “absolutamente necessárias”. A lição ocupa-lhe a vida e toda a poesia que cabe nela... “A ‘pureza’ de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, uma paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada”, há-de escrever, um dia, mais tarde.

O primeiro poema é publicado em 1940, tem por título ‘Narciso’ e por autor um José Fontinhas tão arrependido que, de um golpe só, arruma de vez, poema e nome ... “Foi uma alegria ver o meu nome impresso, mas passado pouco tempo tinha tanta vergonha que passei a assinar com outro nome aquilo que ia escrevendo”, sustenta.

Em 1941 acontece a primeira referência pública à sua poesia, no âmbito de uma conferência, ‘A Nova Humanidade da Poesia Nova’, de Joel Serrão, na Faculdade de Letras de Lisboa, e, um ano depois, surge o primeiro livro, ‘Adolescente’, dedicado a Fernando Pessoa, uma edição de autor paga por um amigo.

"PENSO EM COIMBRA E..."

E estava há 11 anos em Lisboa quando, sempre com a mãe, se vê de armas e bagagens em Coimbra, onde ficará por três anos. Entre 1943 e 1946, vive o serviço militar, as primeiras traduções de poemas seus para francês e a publicação do livro ‘Pureza’... “Penso em Coimbra e é este rumor que me chega: um amanhecer de pássaros, o coaxar das rãs pela noite fora. Entre uma coisa e outra, os noticiários da BBC, os Quartetos de Beethoven, a comovida e tão desenganada poesia de Oliveira Martins, e as discussões intermináveis, só possíveis quando a juventude é excessiva, e não nos cabe nas mãos um tal ardor”, escreve sob o título ‘Excessivo é Ser Jovem’.

‘As Mãos e os Frutos’, recolha de poemas concebidos entre 1945 e 1948, é o livro da viragem, da revelação, da diferença... “Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias”. Chama-se ‘Poema Para o Meu Amor Doente’ e é um dos tais que fizeram deste o primeiro de todos os livros.

Publicado em 1948, com ele, afirma-se uma carreira predominantemente poética, ainda que paralela a investidas várias nos domínios da prosa, da tradução ou da antologia.

"O PORTO É SÓ..."

Estamos em 1950 quando Eugénio de Andrade chega ao Porto, por transferência dos Serviços Médico-Sociais do Ministério da Saúde, onde exerce funções de inspector-administrativo desde 1947.

Passaram, entretanto, 53 anos de Porto que não parecem ter maculado o deslumbramento desse primeiro ano de 1950... “O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, procurando assim parecer-me com a terra obscura do meu próprio rosto” .

Com a morte da mãe, em Março de 1956, morre com ela muito do que resistia de José Fontinhas em Eugénio de Andrade, que, a propósito, dirá “a minha ligação à infância é, sobretudo, uma ligação à minha mãe e à minha terra, porque, no fundo, vivemos um para o outro”.

Em 1977, a editora Limiar abalança-se na publicação da ‘Obra de Eugénio de Andrade’, colecção hoje da responsabilidade da Fundação que leva o nome do poeta. Conhecido pela relutância em conceder entrevistas, reuniu as raras havidas num volume, o número 14, da sua ‘Obra’, sob o título de ‘Rosto Precário’.

Eugénio de Andrade publicou mais de duas dezenas de livros de poesia, o seu género maior, estando a sua bibliografia traduzida em 20 línguas e 20 países, nomeadamente, Alemanha, Itália, Venezuela, China, Espanha, México, Luxemburgo, França, Estados Unidos...

Escritores e críticos de Portugal e do Mundo não hesitam em reconhecer nele “um dos mais lidos e traduzidos poetas portugueses vivos”. Aos prémios, somou anos de vida literária, 50 em 1995, data do mais recente livro: ‘O Sal na Língua’.

Há muito tomado de amores pela Invicta, a cidade retribui-lhe o afecto sob a forma de homenagem comemorativa dos 80 anos do poeta. E, não sendo a única, é a mais generosa.

“Uma Prenda para Eugénio com Algumas Túlipas” é, simultaneamente, uma exposição, uma sessão de poesia e um recital de canto e piano. O acontecimento está agendado para esta tarde (16h00), na Biblioteca Almeida Garrett. António Ramos Rosa, Herberto Helder, Gastão Cruz, Vasco Graça Moura, Manuel Gusmão e Maria Velho da Costa são seis dos 32 poetas participantes, a que se juntam ainda 23 pintores, casos de Júlio Resende, Júlio Pomar, Armando Alves, José Rodrigues, Ângelo de Sousa e Graça Morais. O resultado, já se diz, pode vir a dar livro, de nome “Uma Prenda para Eugénio com Algumas Túlipas”, naturalmente. No mesmo dia, mas às 18h30, na Fundação Eugénio de Andrade, e residência do poeta, entre a Rua do Passeio Alegre e a Calçada de Serrúbia, há poemas de Eugénio nas vozes de Fernando Guimarães, Arnaldo Saraiva, Mário Cláudio, M. A. Pina, Rosa Alice Branco, e Ana Luísa Amaral, entre outros.

E, depois da poesia, o cinema. Em estreia absoluta, documentário sobre a vida e a obra de Eugénio, trabalho de Arnaldo Saraiva e da Fábrica das Imagens, para o Instituto Português do Livro e da Leitura. Por último, mas de não menos importância, é lançado o último número da revista Cadernos de Serrúbia, edição da Fundação Eugénio de Andrade.

Concelho de origem do poeta, o Fundão, através da edilidade local, dedica o dia de amanhã a Eugénio de Andrade, com o lançamento da Rota dos Escritores. Esperam-se as presenças do ministro da Cultura e do Presidente da República. Do programa fazem parte, além da abertura do Núcleo Eugénio de Andrade, duas exposições, a inaugurar pelas 12h00 na Junta de Freguesia de Póvoa de Atalaia, que têm por denominador comum... Eugénio de Andrade.

No seu próximo disco, a fadista Mariza canta um poema de Eugénio de Andrade. Tem por título “Retrato” e trata-se de um poema “descoberto” pela fadista num livro de homenagem a Eugénio de Andrade, de quem a cantora confessou ser "grande fã".

O poema insere-se no espírito do novo disco (ainda sem título), que a fadista diz ser “mais orgânico e sentimental”. “Escolhi um repertório de coisas que me arrepiam e emocionam”, afirmou a cantora ao CM. O novo disco de Mariza tem edição agendada para Abril.

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