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Correio da Manhã

Cultura
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Patxi Andión: "A PIDE deu-me doze horas para deixar Portugal"

Músico espanhol de 71 anos atua esta sexta-feira no Centro de Artes de Águeda, sábado na Aula Magna, em Lisboa e domingo na Casa da Música, no Porto
Miguel Azevedo 20 de Setembro de 2019 às 16:29

Músico, autor, compositor, professor universitário, escritor, cantor e ator de televisão, Patxi Andión nasceu a 6 de Outubro de 1947, em Madrid. Em Portugal deu-se a conhecer no programa Zip-Zip. Ary dos Santos traduziu algumas das suas canções ainda antes do 25 de Abril. Já colaborou com a fadista Ana Moura.

Tem uma longa história de relação com Portugal, mas as primeiras vezes não lhe terão deixado boas memórias. Estávamos ainda na ditadura e o Patxi foi impedido de atuar pela PIDE. Como é que foi isso?

A primeira vez que vim a Portugal foi para fazer a primeira parte de um espetáculo de Manolo Díaz. Ele foi expulso antes do concerto e a mim deram-me 12 horas para deixar o país. Na segunda vez que vim foi para cantar no programa Zip Zip. Quando saí do canal a PIDE estava à minha espera. Meteram-me num carro tal como eu estava vestido, sem documentação e deixaram-me na fronteira de Badajoz. Dessa vez eu tive mesmo muito medo. Foi uma viagem feita de noite e todas as vezes que eles paravam, eu pensava que iam dar-me um tiro. Curiosamente, foi naquela noite que começou a minha amizade com Zeca Afonso.


Como será esta mini-drigressão que traz agora a Portugal de celebração dos 50 anos de carreira?

Esses espetáculos têm duas faces. Por um lado, a comemoração da publicação do meu primeiro álbum ‘Retratos’, de 1968 e, por outro, a apresentação do último álbum de novas canções ‘La Hora Lobican’. Entre eles vou tocar algumas músicas destes cinquenta anos. Não é fácil escolher entre mais de 200 músicas gravadas. Há sempre um conflito entre o que o autor deseja mostrar e o que o público espera ouvir. Não podemos fazer um espetáculo longe das expectativas do público, mas também não podemos fazer um karaoke. Suponho que, como acontece em outras disciplinas, nas artes plásticas, por exemplo, as pessoas não vão a uma nova exposição de um artista esperando para ver as mesmas figuras penduradas. Eles querem ver qual é o trabalho atual. Se nos ficássemos pelos sucessos, não valeria a pena continuar a compor.

De que fala este seu último trabalho, ‘La Hora Lobican’?
Este disco procura seguir com as sensações que despertam da observação. Cada um olha para aquilo que mais lhe interessa. Claro que depois de 50 anos, as motivações que eu tinha aos 20 anos, não são obviamente as mesmas que eu tenho agora aos 72. Este é, por isso, um disco mais culto, mais refinado, mais maduro do ponto de vista literário e musical, e seguramente menos intuitivo, menos simbólico, embora mantenhas as mesmas preocupações culturais, sociais e politicas.

Com 50 anos de carreira, é um músico realizado?
Eu aprendi a cantar ao piano com a minha avó materna que era soprano, mas a verdade é que nós estamos sempre a aprender. Um músico nunca chega ao final do caminho.

O que é que recorda com mais saudade do começo da sua carreira?
Talvez a ingenuidade e toda a ilusão que eu tinha. Ainda assim, nunca pensei fazer música a minha vida toda.

E como é a sua relação com o palco ao final deste tempo todo?
Subir ao palco é como nascer de novo. Cada espetáculo é sempre diferente mesmo se fôr feito no mesmo local e no mesmo dia. Claro que não é fácil duas horas de concerto só com voz e guitarra. É sempre um grande risco, mas graças à genética herdada e talvez pela técnica, consiga manter a minha voz e isso deixa-me muito seguro.

E o que espera ainda da música?
A música é um universo que continua a girar em torno de doze planetas que são notas musicais e não têm fim. Hoje, ninguém pode conceber ou tentar interpretar o mundo ao nosso redor sem entender a música que milhões de pessoas ouvem nos seus phones quando vão nos transportes públicos. A música é a principal marca da sociedade, porque está apenas sujeita à vontade. É livre.
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