Filme retrata comunidades suburbanas e uma juventude à deriva, e foi filmado na terra-natal do realizador.
O realizador Pedro Cabeleira quer levar "Entroncamento", nas salas de cinema comerciais a partir de quinta-feira, a todo o país, para chegar a comunidades suburbanas como as que retrata na obra em que regressa ao sítio onde cresceu.
Em entrevista à Lusa, o realizador explica que o retrato de uma juventude que teme a estagnação, numa cidade ferroviária onde cresceu antes de se mudar para Lisboa, encerra uma série de recortes "geracionais" que iniciou com "Verão Danado", filme que lhe deu notoriedade, após a menção especial no festival de cinema de Locarno em 2017.
Cabeleira, nascido em 1992, tinha filmado há anos um videoclipe no Entroncamento, de onde é natural, e aí criou "um olhar diferente, um olhar de quem ia filmar" aquelas ruas e aquelas casas com as quais cresceu.
"De repente, a olhar para as caras de quem conhecia desde pequeno. [...] Quando fui fazer este videoclipe, havia a proposta de filmar com as pessoas de lá, tentar fazer uma pequena história, até, e esse lado de filmar rostos verdadeiros, de pessoas que tinha conhecido, foi um clique", conta.
Para o realizador, que ali cresceu num dos bairros ferroviários, seria "uma oportunidade desperdiçada não estar a falar" sobre aquelas histórias, concluiu, e este filme é "específico" de um território, mas também de uma suburbanidade que se torna personagem a par das que são de carne e osso.
Laura (interpretada por Ana Vilaça) chega à cidade vinda do Porto e, aos poucos, entre trabalhos precários e novas relações, começa a envolver-se no mundo da pequena criminalidade e da droga, porta de entrada para conhecer outras figuras, num elenco que inclui também Cleo Diára, Rafael Morais, Tiago Costa, Sérgio Coragem, André Simões e Henrique Barbosa.
Das linhas férreas aos túneis, aos bairros operários e ferroviários, o Entroncamento ganha face visível num filme que não se queria "etnográfico", mas que retratasse um território e as histórias que nele habitam.
Há aqui "uma série de questões relacionadas com um tipo de identidade muito masculina", "meio conservadora", a identidade suburbana ligada ao 'rap', mas também a multiculturalidade e o choque entre comunidades.
"Pus uma lupa numa comunidade em específico, num grupo, um grupo de jovens e jovens adultos a entrar no fim da sua juventude e estão ligados a este tipo de pequenos delitos. Mas as dinâmicas, principalmente as raciais, chamemos-lhe assim, existem para lá desse pequeno grupo. É uma coisa com a qual eu cresci", explica.
Este discurso "instrumentalizado" pela extrema-direita, num município governado pelo Chega desde 2025, não passa ao lado do filme, que começou a ser filmado em 2022, quando a questão "já era muito presente".
Um filme com várias linhas narrativas não é nem "denúncia" nem "sátira", incorporando ambas, mas mais "um retrato, faz parte do que era a cidade", a começar pelas personagens, tendo Pedro Cabeleira dado espaço também aos atores e não-atores para trabalharem no texto, como por exemplo "com a comunidade cigana".
"Houve muitas cenas que foram depois desenvolvidas e trabalhadas com os próprios atores, porque havia muita coisa que não era a minha realidade e nem era o meu lugar de estar a adivinhar a especificidade. [...] O objetivo do filme era que tivesse esta sensação de real, de quase falso documentário, mas ser também um filme meio de género", próximo de um 'neo-noir', acrescenta.
Depois de "Verão Danado" e da curta "By Flávio", o regresso às origens foi também uma forma de encerrar um capítulo de retratos geracionais, um tríptico informal que vem das angústias da juventude até este momento do último filme, em que "a vida está cada vez mais a tirar-nos o tapete e a confrontar-nos, que se calhar já não vai passar muito mais disto".
"Sinto que os três filmes comunicam nesse sentido uns com os outros e houve essa intenção. [...] Vou descobrir o que é que surgirá daqui para a frente", afirma.
Depois de estrear no programa ACID, paralelo ao festival de Cannes, "Entroncamento" passou em Portugal pelo Leffest e pelo Caminhos do Cinema Português, e tem "sido bem recebido", antes da estreia comercial.
"Senti que as pessoas se viam representadas no filme, que viam a nossa realidade e que o filme comunicava assuntos que estavam a acontecer no nosso país", declara.
Entre as preocupações para a exibição comercial está a vontade de que a obra se torne acessível, também, em territórios fora dos centros de Porto e Lisboa, mas também nas cidades suburbanas e outras vilas, para chegar a comunidades fora do "nicho cinéfilo" que habitualmente vê cinema português em sala.
"O que eu gostava era que o filme também abrisse para outros públicos, que às vezes não têm acesso. Às vezes não é por falta de vontade, é mesmo porque os filmes não estão nos lugares onde essas pessoas costumam ir ver cinema", lamenta.
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