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Correio da Manhã

Cultura
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Pegadas raras à mostra

A descoberta de 25 novas pegadas de dinossáurios nas arribas da Lourinhã, algumas com impressão da pele de dinossáurios saurópodes, a maior pegada de dinossáurio carnívoro do Jurássico e as primeiras pegadas de estegossauros e anquilossauros em Portugal é motivo de grande satisfação junto dos paleontólogos, dadas as características raras dos achados, que permitem estudar o movimento da passada daqueles animais que existiram há 150 milhões de anos.
6 de Setembro de 2005 às 00:00
Octávio Mateus junto ao fóssil de um fémur de dinossáurio
Octávio Mateus junto ao fóssil de um fémur de dinossáurio FOTO: Carlos Barroso
Os trabalhos desenvolvidos em Agosto pelo Museu da Lourinhã, que se dedicou ao estudo dos achados na zona, considerada uma das principais jazidas na Europa, deram os seus frutos e evidenciaram novas pegadas de dinossáurios. Foi também escavado parte de um esqueleto de um dinossáurio saurópode achado pelo mais novo voluntário do museu, um jovem de dez anos de idade.
As escavações, orientadas pelo paleontólogo Octávio Mateus, especialista em dinossáurios do museu e da Universidade Nova de Lisboa, contaram com a participação de 30 voluntários nacionais e estrangeiros, entre os quais alunos de universidades. “Estamos entusiasmados”, confessou o especialista ao CM, destacando que foram agora descobertas “pegadas raras a nível mundial”.
No local, foram identificadas pegadas de estegossauros, anquilossauros, saurópodes e terópodes, ou seja, representantes dos grandes grupos de dinossáurios que existiram no Jurássico. “São, na verdade, os moldes naturais da pegada, o que permite, 150 milhões de anos depois, estudar o movimento da passada”, explicou.
Uma das jazidas, na Praia de Porto Dinheiro, revelou uma variedade de pegadas bem conservadas. Inclui três de dinossáurios carnívoros com 35 cm de comprimento, uma de estegossauro – a primeira achada no nosso país –, e outras enormes, com um metro, de dinossáurio saurópode que ainda conservam impressões da pele. “Estas mostram que as escamas dos dinossáurios saurópodes tinham um padrão hexagonal e é talvez a melhor impressão da pele das patas dos saurópodes que se conhece”, sublinhou aquele responsável.
Uma das descobertas mais interessantes é uma pegada de quase 80 cm de um carnívoro com 3,5 m até a altura da anca: é o indício do maior carnívoro do Jurássico, quase do tamanho das pegadas do famoso Tyrannosaurus Rex.
VOLUNTÁRIO DE PALMO E MEIO
Um dinossáurio saurópode foi descoberto este Verão por uma criança de dez anos, Alexandre Silva, quando andava de bicicleta no campo, na povoação de Galeana, a dois quilómetros da Lourinhã. “O seu entusiasmo e interesse pelos dinossáurios levaram-no a colaborar com o Museu e, depois disso, a fazer o achado da sua vida”, relatou o director da instituição, que tem no rapaz o seu “mais novo voluntário”.
Os restos esqueléticos permitem identificar o esqueleto como sendo um dinossáurio da família dos Diplodocus, que compreende alguns dos mais compridos animais que se conhecem, embora o exemplar agora recolhido ainda não tivesse atingido a dimensão máxima: “Era um jovem de apenas 15 metros de comprimento”, apontou Octávio Mateus.
RIQUEZA ESCONDIDA
MONUMENTO
A região Centro do País ‘esconde’ uma riqueza ímpar, sendo exemplo disso o Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáurios da Serra de Aire, que foi criado numa antiga pedreira. Este monumento contém um importante registo fóssil do período Jurássico que inclui 20 trilhos de pistas. Outro achado importante foi o do esqueleto de uma criança com cinco anos de idade e que terá vivido há 25 mil anos no Vale do Lapedo, concelho de Leiria. Foi encontrado em 1998, sob uma rocha.
MUSEU PRÓPRIO
O Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã foi criado em 1981 e serviu de base à fundação do Museu local que, nos anos 90, anunciou a descoberta do importante legado paleontológico da região, tornando-se referência obrigatória na comunidade científica internacional. A dimensão do espólio fez sentir a necessidade de um novo espaço e está em perspectiva a criação do Museu do Jurássico, que contempla um grande espaço museológico e um jardim com a fauna e flora de há 150 milhões de anos.
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