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Correio da Manhã

Cultura
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Polémica em palco

'Me Cago en Dios’ estreou anteontem com sala cheia, no Teatro da Comuna, em Lisboa, e o director do grupo Cassefaz, que importou de Espanha o espectáculo, tem consciência do tom polémico da obra. Em Espanha, a Igreja rotulou a peça de “ultrajante” mas, por cá, os sacerdotes contactados pelo CM desconhecem a peça.
7 de Junho de 2006 às 00:00
Carloto Cotta, em palco
Carloto Cotta, em palco FOTO: d.r.
“É um trabalho inquestionavelmente polémico a partir do momento em que põe em causa todas as religiões e seitas”, admite Miguel Abreu, director do Cassefaz. A estreia de ‘Me Cago en Dios’ aconteceu no âmbito de um acordo entre o grupo Cassefaz e a Associación de Actores de Teatro de Madrid, e a peça mostra-se na Comuna até 2 de Julho.
E já gerou algumas atitudes menos ortodoxas. Ontem, a tela gigante que promove a peça, na fachada do Teatro, foi toda pintada de negro e o grupo teve de chamar a Polícia para apurar responsabilidades.
Já por parte da Igreja, ainda não há reacções. “É uma expressão espanhola antiga e blasfema que, felizmente, não existe em Portugal”, reconhece o padre Vítor Melícias, preferindo não comentar o conteúdo da peça que desconhece. “No nosso País respeita-se Deus. Essa expressão [‘Me Cago en Dios’] faz parte da História da cultura dos povos e choca-me enquanto blasfémia”.
Também o padre Carlos Azevedo considera a expressão “uma blasfémia comum em Espanha. Há quem ache que Arte tem de ser uma provocação e considera que é uma forma de pôr as pessoas a pensar. Se for esse o objectivo e tiver resultados, então, é positivo.”
Um objectivo que, para o director do Cassefaz, é função ‘natural’ do teatro: “Sabemos que esta peça mexe com a consciência das pessoas mas porque não questioná-las?”, interroga-se Miguel Abreu. “Todo o espectáculo onde existem transgressões ideológicas, sociais ou políticas causam polémica, mas não queremos polémica gratuita”, frisa. Afinal, “o teatro tem que ter voz activa.”
'SANITA PARA EXORCIZAR PROBLEMAS'
“Uma sanita como espaço para exorcizar os problemas intestinais de um humano, atormentado pela sociedade e pelos ideais religiosos, simbolizam o clímax orgânico criado por Ramírez de Haro neste seu controverso texto”, lê-se no comunicado que resume o conceito do espectáculo de Íñigo Ramirez de Haro, dramaturgo espanhol que, no seu país, foi alvo de mais de três mil denúncias judiciais por “provocar o ódio a partir de motivos religiosos”, antes da estreia, em Abril de 2004.
Meses mais tarde, o juiz absolveu o dramaturgo e agora, até 2 de Julho, a peça encenada pelo próprio autor e interpretada pelo jovem actor português, Carloto Cotta, mostra-se no Teatro da Comuna, com o apoio da Embaixada Espanhola. De terça-feira a sábado, às 22h00, e domingos, às 18h00.
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