Artista coloca esta terça-feira um ponto final numa carreira de mais de seis décadas. Espetáculo de despedida esgotou em três dias.
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Continua a fumar (o “único vício”, diz), gosta do seu cafezinho, de um bom “gole” de Whisky e é uma noctívaga assumida. “Não me ponham na cama às nove da noite que eu não durmo”, diz ao CM. Gosta de ler até tarde, ver TV (“sou uma excelente assistente de televisão”) e estar com os amigos, que “não sendo muitos, são bons”. Estes são alguns dos hábitos que se manterão nas rotinas diárias de Simone de Oliveira, porque os outros, os de ir para estúdio gravar novelas, ensaiar com os músicos ou andar a cantar de norte a sul, esses acabam oficialmente esta terça-feira, aos 84 anos, quando colocar um ponto final na carreira.
O espetáculo de despedida, intitulado ‘Sim, sou eu... Simone’, tem lugar no Coliseu de Lisboa e esgotou em três dias. “Não estava nada à espera. Até me arrepiei”, confidencia. “Mas tudo na vida tem um princípio e fim, e eu acho que este era o momento para dizer chega”, justifica ao CM. “Agora quero ser feliz na minha casa e aproveitar o resto da vida com serenidade, dignidade e cabeça no sítio.”
Nascida em Lisboa, a 11 de fevereiro de 1938, Simone de Oliveira entrou para o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional com 19 anos para ‘curar’ uma depressão depois de ter sido vítima de violência doméstica. “A ideia era passar três horas por dia para ver se ficava melhor da cabeça”, conta. Nunca pensou, no entanto, em ser artista e quando lhe perguntaram se queria cantar, até respondeu de pronto: “Não, não quero!”. Só que o destino estava traçado. A RTP nasceu e com ela nasceu Simone de Oliveira.
Fez teatro de revista, participou em vários festivais da canção, representou Portugal na Eurovisão, em 1969, com ‘Desfolhada’, lançou mais de 30 discos, fez cinema e tem sido presença assídua em séries e telenovelas desde 1977. “Até trabalhei com a Betty Faria e com a Mariana Rey Monteiro, o que é que eu posso querer mais?”, pergunta. Espera-a agora o recato do seu lar, uma pequena casa em Lisboa, localizada na que chama ‘Esquina do Nada’. “Não há elétricos, não há lojas, não há autocarros e nem há gente”, diz. Nunca conseguiu ter uma janela virada para o mar, mas goza hoje de uma “vista sobre a piscina de um condomínio que está sempre vazia”, ironiza.
A saúde também lhe pregou algumas partidas, quase perdeu a voz e um cancro obrigou-a a retirar uma mama, mas hoje, tirando um problema numa anca, diz que está para “as curvas”. Vive sozinha desde a morte do grande amor Varela Silva, em 1995, não sai à rua sem ser arranjada e diz que nem em casa é capaz de andar de robe. Sobre o que fica para trás diz apenas. “Vou ter uma ‘saudade lavada’. Por outras razões chorarei, não por isto”.
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