Johnson ameaça o ‘establishment’ com canções simples (...). Aos poucos, sem ondas, vai dando passos de gigante.
Se o mundo masculino não esconde o seu preconceito com as louras, o universo das artes não consegue camuflar a sua desconfiança face ao que pode chegar-lhe vindo de um ‘surfista’. O que não chega para incomodar Jack Johnson, que cometeu o ‘pecado’ de nascer no Hawaii, há 30 anos, e o deslize, capital, de gostar de praticar surf e de realizar filmes sobre o seu desporto. Apadrinhado por gente das ‘franjas’ – como o castiço G-Love (dos G-Love and Special Sauce) e como o insuspeito Ben Harper, bem amado dos portugueses –, Johnson ameaça o ‘establishment’ com canções simples, todas desenhadas na guitarra acústica, todas tocadas com uma simplicidade difícil de aceitar pelos que gostam de complicar o ‘processo criativo’.
Aos poucos, sem ondas (não, não é uma piada ao surf), Jack vai dando passos de gigante, surpreendendo meio mundo com a continuidade em crescendo dos seus álbuns de ‘tempo inteiro’ – ‘Brushfire Fairytales’, de 2001, ‘On and On’, de 2003, e ‘In Between Days’, de 2005 – a que junta bandas sonoras para ‘fitas’ ligadas ao surf – casos de ‘Thicker Than Water’, ‘September Sessions’ e ‘Sprout’.
O disco que está na base deste texto é outra banda sonora, desta vez reservada para um filme de animação, ‘Curious George’. Mas até aí Johnson revela-se cuidadoso: o título oficial do álbum é ‘Sing-A-Longs and Lullabies for the film Curious George’. Que é como quem diz fica feito o aviso de que se trata de cantigas especialmente dirigidas aos mais novos, convidados a acompanhar o disco. Chega, aliás, a haver uma participação de miúdos no próprio álbum, em ‘The Sharing Song’, que resulta em pleno, no contexto. Mais adiante, é Ben Harper que traz a sua voz inconfundível a ‘With My Own Two Hands’. Antes, coubera em sorte a G-Love abrir as colaborações da ‘seita’, cantando em ‘Jungle Gym’. Simpática, didáctica, terna, simples, esta nova aventura do ‘surfista platinado’ (pelos prémios, não pela coloração capilar) limita-se a ser mais rigorosa na pontaria, já que o essencial da sua música não se altera.
Dá-se o caso de, já na próxima segunda-feira (13), Johnson enfrentar o público lisboeta num esgotado Pavilhão Atlântico. Salvo qualquer percalço, há-de fazê-lo com a mesma atitude que os discos reflectem: cantando, de forma directa e sensível, as coisas da vida, os amores, as amizades, os desgostos, as memórias, as marés, os desafios, os fracassos, as glórias. Dir-me-ão os cépticos do costume que, para Jack Johnson, um palco de envergadura ou o sofá lá de casa são quase a mesma coisa, que as cantigas que protagoniza têm ar caseiro e quase juvenil. Bem aventurados os fiéis, os que ainda acreditam que o sinal de uma música maior passa menos pela parafernália do que pela entrega, pelo talento e pela coerência. Em qualquer desses três domínios, o ‘surfista’ cantor pede meças ao mais pintado. Não o levar a sério e não lhe reconhecer os méritos é sinal que – de vez? – se perdeu o contacto com a realidade. E, mais do que isso, com a capacidade de ser simples.
MIGUEL BRAGA: AO SERVIÇO DAS VOZES
Miguel Braga, homem do Norte, é daqueles compositores e instrumentistas que passa despercebido aos menos atentos, tendo em conta que os focos estão por norma concentrados nos cantores e raramente se viram para o canto onde se arrumam pianos e teclados. Ora este músico, que se conhece de trabalhos com Paulo de Carvalho, Fernando Girão e Lara Li, além de uma noites bem ‘jazzadas’ no Porto e arredores, descobriu a forma mais inteligente de contornar o estigma – em ‘Secreta Passagem’, assinado por Miguel Braga e Amigos, cede a primazia às vozes convidadas, mas serve de elo de ligação, como compositor, autor, arranjador.
De resto, consegue puxar o melhor que há nas vozes de Paulo de Carvalho, Diana Basto (prazer em rever!), Fernando Girão, Paula Oliveira e nas presenças – algo inesperadas mas notáveis – de Carlos do Carmo e Ivan Lins. Junte-se Pedro Abrunhosa, com um notável ‘Meu Querido Diário’, e está composto um ramalhete que garante muitas passagens a este disco: música ligeira e ‘jazzy’, balada e pop, funk e Brasil. Afinal, as muitas facetas de um músico que merece toda a atenção.
- ‘Memoirs Of A Geisha’, genial banda sonora de JOHN WILLIAMS para o filme de Rob Marshall, perdeu o Óscar pela razão errada – o excesso de nomeações e menoridades do autor. É o melhor que fez desde ‘Schindler’s List’, múltipla, romântica, com mais-valias de Yo Yo Ma e Itzhak Perlman. Fica na História.
- ‘Brokeback Mountain’, banda sonora de Gustavo Santaolalla para o filme de Ang Lee, ganhou o Óscar pela razão errada. A partitura é banal, previsível. Boas, mesmo, são as canções de RUFUS WAINWRIGHT, Teddy Thompson (fixem), Emmylou Harris e Steve Earle, espelhos da América actual. Não se perde tudo.
A série ‘Desperate Housewives’ é o que se sabe: um mimo. Da banda sonora, o mínimo que pode dizer-se é que está ao nível – apresenta as personagens centrais (incluindo a defunta Mary Alice) e ajuda a caracterizá-las com duas ou três cantigas escolhidas a dedo. Só com vozes femininas, de que se destacam K. D. LANG, Liz Phair, as Indigo Girls, Joss Stone, Macy Gray e Idina Menzel, entre outras. Não falta aqui sequer o tema que abre e fecha os episódios, uma pequena pérola da imaginação de Danny Elfman. Tudo em estilo.
Continua tudo certinho, mas sempre muito asséptico, pelo mundo das canções de LAURA PAUSINI. Neste ‘Live In Paris 05’, a italiana não mostra evolução e os temas que agarram (‘La Solitudine’, ‘Strani Amori’) continuam a ser os do princípio da carreira. Não cresce porque não pode ou porque não sabe?
- Ao quinto álbum, ‘Dark Light’ e apesar de aderirem às superproduções, os finlandeses HIM não escapam ao lado mais espalhafatoso e gratuito do gótico, esquecido da essência, cheio de truques. O que irrita é perceber que eles até sabem fazem canções. ‘Under The Rose’ e ‘Play Dead’ provam-no. Não chega.
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