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Correio da Manhã

Cultura
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Preciso de silêncio para escrever

O tempo e o silêncio são-lhe indispensáveis para escrever. A solidão e o isolamento acontecem por tabela. Depois de três anos a adiar e mais um a hesitar, Lídia Jorge refugiou-se na casa de família, em Boliqueime, durante 71 dias, e o resultado valeu a pena: ‘Combateremos a Sombra’ (ed. D. Quixote).
26 de Março de 2007 às 00:00
“Se não pudermos fazer nada para mudar as coisas que estão mal, podemos pelo menos escrever sobre elas e, assim, as combater”, explicou, referindo-se à obra cujo título não surgiu por acaso.
Romance sobre o Homem e o Poder, o difícil equilíbrio de forças entre o individual e o social, este é um livro político, tanto quanto a sua autora é uma escritora de causas mas não só... “Escrevi, de facto, uma ficção com assomo político mas se a sua leitura resultar exclusivamente política, então, ou está mal escrita ou está mal lida”, brincou.
Já sobre o processo criativo, Lídia não brinca. Rituais e superstições não tem mas confessa que precisa de tempo “porque é preciso silêncio para escrever”. Mais: “Não sou disciplinada nem tenho horas para escrever. Além disso, demoro bastante para entrar na atmosfera do livro e depois para sair dela. Também por isso não sou uma escritora de um livro por ano”, adiantou ao CM.
Lídia Jorge tão-pouco escolhe as personagens e chega mesmo a ser perseguida por elas.
O psicanalista que protagoniza este novo romance não foi excepção: só no processo de composição da personagem investiu três anos sem contar com aquele que levou a resistir-lhe com hesitações e dúvidas.
Psicanalistas amigos, como Maria Belo ou António Mendes Pedro, policiaram-lhe os excessos e, superada a prova, a missão foi cumprida.
“É-me fácil escrever, confesso. Difícil é encontrar personagens com a inteireza das pessoas reais” concluiu. E, em jeito de despedida, deixou o convite: “Espero ter conseguido. Depois me dirão!”
'UNIVERSO PESSOAL'
Até 20 de Abril, de segunda a sexta (10h00-18h00) e às quintas (13h00-20h00) a Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, apresenta a exposição ‘Universo Pessoal’ – onde dá a conhecer alguns dos objectos de culto de Lídia Jorge: sobretudo livros e não só os seus. Quatro livros resgatados à infância – ‘A História da Maria Tonta’, ‘A Velha Malvada’, ‘Alice no País das Maravilhas’ e ‘As Proezas do Anão Folião’ – e, ainda, os lápis e as canetas: a de tinta permanente e a primeira Parker.
Os dois primeiros poemas, o relógio da mãe, o relógio do pai e o que Carlos Albino lhe ofereceu, também lá estão. Primeiras versões e edições, apontamentos e ensaios, recortes de Imprensa, cartas e fotografias, recados dos filhos, Clara e Duarte. Em suma, o mundo de Lídia.
AS FALSAS APARÊNCIAS
Osvaldo Campos, o protagonista de ‘Combateremos a Sombra’, é psicanalista porque a história requeria um confidente. E isto porque o tema do livro é a mentira que, transformada em verdade, controla e domina as consciências.
“É um tema tão eterno como a própria Literatura”, segundo a autora. Cada cultura, cada país, tem a sua forma de encarar este tempo de falsas aparências. Para Lídia, em Portugal, “esta contradição é uma herança histórico-cultural de encobrimento tácito da verdade pela classe dominante, o que conflitua com os princípios das sociedades modernas: a clareza e a justiça.”
PERFIL
Lídia Jorge nasceu em 1946 em Boliqueime. Concluiu e leccionou Filologia Românica. Em 1970 partiu para Moçambique, experiência de que nasceu o primeiro livro de uma bem sucedida carreira: ‘O Dia dos Prodígios’ (1980).
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