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Correio da Manhã

Cultura
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QUANDO OS FRANCESES QUISERAM O BRASIL

Com quase dois metros de altura, um sorriso simpático e uma surpreendente fluência em português, Jean-Christophe Rufin alia à sua actividade de escritor a de idealista. Médico - fundou a organização Médicos Sem Fronteiras - e teórico da acção humanitária, foi conselheiro do primeiro secretário da Acção Humanitária do governo francês. Como escritor tem sublinhado ao longo das suas obras o encontro de civilizações, numa tentativa de desvendar mundos antagónicos.
12 de Junho de 2002 às 21:34
Jean-Christophe Rufin autor de Pau-Brasil
Jean-Christophe Rufin autor de Pau-Brasil
“Pau-Brasil" não é excepção... A história de Juste e Colombe tem como cenário o Brasil dos finais do século XVI quando os franceses apostaram também na constituição de uma França Antártica. Este episódio histórico, pouco conhecido em Portugal e mesmo em França, remete-nos para a Renascença, na época em que a França tentava conquistar o Brasil.


Longe dos cenários do norte de África a que já nos tinha habituado (Rufin é autor de algumas obras conhecidas, tais como, "O Abíssinio" e "O Boticário do Rei", onde a Etiópia está sempre presente), Jean-Christophe não foge ao seu amor pela História e dá-nos, como sempre, a visão dos europeus que saem do seu pequeno mundo em busca do desconhecido.


"Como me lembrei de escrever sobre o Brasil? É simples. Estive dois anos no Brasil como adido cultural, mas tinha um orçamento tão escasso que pouco podia fazer. Decidi então estudar um pouco da história do país e... foi assim", diz Rufin, acrescentando que a visão da Baía de Guanabara o tocou de tal forma que pensou no que terão sentido os povos que ali chegaram pela primeira vez.


Sentiu também curiosidade por conhecer melhor o povo brasileiro e a diferença fundamental que, como europeu, detectou... "Os europeus têm tendência a eliminar as diferenças e no Brasil assisti ao processo inverso: o de incluir. Desde o candomblé que inclui na mesma religião todas as outras, até à mistura de raça que existe por lá".


Apresentado pelo editor como um contador de histórias, Jean-Christophe não nega que escreve o que gosta de ler e que a sua ligação à escrita é de tal forma íntima que escreve à mão: "Conto histórias porque esta é a única forma de poder alterar a realidade, de a colorir e de sentir capacidade de a conduzir".


Perante a impotência que sente ao ver o que o rodeia, esta pode ser uma forma de conduzir a realidade a um final feliz: "A maior verdade é a da imaginação, já que ela não se apoia em nenhuma autoridade e retira a sua força da convicção que faz nascer no leitor"...


E porque apela à imaginação, mas também aos sentimentos, esta obra lê-se de um fôlego.
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