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Correio da Manhã

Cultura
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QUASE UMA RELIGIÃO

"R.E.M. Athens Georgia". As palavras a branco inscritas nas gigantescas caixas negras que, ao início da tarde de terça-feira, já ocupavam o passeio frente ao número 11 da Calle Barceló, em Madrid, não deixavam dúvidas: Michael Stipe, Peter Buck e Mick Mills iam mesmo passar por ali.
23 de Outubro de 2003 às 00:00
Michael Stipe nunca parou um segundo, dançou arregaçou as mangas e até mostrou a barriga
Michael Stipe nunca parou um segundo, dançou arregaçou as mangas e até mostrou a barriga FOTO: Andy Butterton (Lusa)
E foi lá, na discoteca Pachá (uma espécie de Paradise Garage em versão Coliseu), que a banda norte-americana promoveu o seu mais recente álbum, "In Time", uma colectânea que reúne os seus melhores temas escritos e gravados entre 1988 e 2003 e que, curiosamente, em nada perderam actualidade e oportunidade. De resto, não deixa de ser notável a frescura e a vitalidade que, ao vivo, a banda ainda consegue emprestar aos temas de sempre como "Man On The Moon", "Losing My Religion", "Nightswimming" ou "Imitation of Life".
Nem a propósito, nessa mesma tarde, durante uma conferência de imprensa realizada num hotel da capital espanhola (ver caixa), Michael Stipe já havia afirmado, perante um batalhão de jornalistas, que a sua voz está melhor do que nunca: "Sou capaz de cantar da mesma maneira". E assim é.
OBCECADO PELAS CANÇÕES
Com um largo e gigantesco “eyeliner” azul-claro pintado de uma orelha à outra, de camisa branca e calças de ganga a escorregar pelas pernas abaixo, careca como sempre e inspirado como nunca, Stipe foi o exemplo de quem continua obcecado pelas canções e a fazer do rock a sua estranha forma de vida, uma vida que se estende por toda a comitiva. Isso mesmo se podia ler, no final da noite, na grelha de um dos muitos camiões que carregam o material dos R.E.M: "You rock, we roll" (“Vocês rockam nós rolamos”, em tradução literal).
Ladeado por Peter Buck e Mick Mills, o líder do grupo que em espanhol se diz "réme", esteve irrepreensível, energético, tocou o público, arregaçou as mangas, mostrou a barriga e dançou, como já nenhum rocker se dá ao trabalho de dançar nos dias de hoje. Tudo perante pouco mais de 900 pessoas, devotas como que a uma religião perdida. No final da noite ficou inevitavelmente um desejo: o de os ver por cá num espaço com as mesmas dimensões.
"O PRÓXIMO DISCO VAI SER MUITO MAIS ESPONTÂNEO"
“Entendemos que, a fazer uma colectânea, teria de ser agora. Achámos a altura ideal para fechar um capítulo e começar outro”. Foi assim que Michael Stipe começou por explicar “In Time”, um disco duplo que, para além de fazer alinhar os temas obrigatórios da carreira dos R.E.M., conta também com raridades e lados B. “Cada um de nós fez uma lista de 15 canções e, curiosamente, chegámos à conclusão de que as três eram muito similares. Por isso, acabou por ser fácil chegar a este alinhamento”, justificou.
O disco conta ainda com dois temas novos, “Animal” e “Bad Day”, que, segundo Stipe, são um bom indicador da direcção que a banda vai tomar no futuro. “Bad Day” (cujo teledisco é uma paródia aos noticiários das cadeias americanas de televisão) é uma espécie de parte 2 de “It’s the End Of The World...”, o que, à partida, poderá agradar aos fãs que “podem contar com um próximo disco muito mais espontâneo”, garante o vocalista, afirmando que o grupo está a atravessar um dos seus melhores momentos: “Sentimo-nos melhor do que nunca e estamos muito contentes com aquilo que somos”. Quanto a digressões, os R.E.M. deverão voltar ‘à estrada’ já no próximo ano.
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