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Correio da Manhã

Cultura
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Raul Solnado falsificou passaportes antes de morrer

No frio e chuvoso Inverno de ‘América’, primeiro filme de João Nuno Pinto, rodado nos primeiros meses de 2009 na Cova do Vapor, na Trafaria, Solnado foi ‘Melo’, exímio falsificador do livrinho que dá nacionalidade portuguesa a quem dela mais precisa.
26 de Maio de 2011 às 13:00
Raul Solnado é 'Melo', exímio falsificador de passaportes
Raul Solnado é 'Melo', exímio falsificador de passaportes FOTO: D.R.

Aos imigrantes de Leste, enredados nesta teia de pequenos mafiosos, o grupo de ‘Melo' ‘dava' (vendia a bom preço!) o passaporte para que eles conseguissem escapar à exploração laboral pelos seus próprios conterrâneos.

Ao grupo de pequenos burlões, liderado por ‘Vitor' (Fernando Luís), o negócio marginal dava a falsa sensação de poder, entre pequenos crimes entre amigos e o perigo iminente da chegada da policia ou da máfia que não queria ninguém legal nas suas obras.

Pelo meio, ainda há um triângulo amoroso. ‘Vitor' ama ‘Liza' (Chulpan Khamatova, estrela do emergente cinema russo) que ama outro compatriota, ‘Andrei' (Mikhail Evlanov). E ‘Vitor' já amou ‘Fernanda' (a espanhola Maria Barranco)... Os encontros e desencontros apaixonados apimentam a já picante trama, repleta de sarcasmos e com uma narrativa veloz, fluida e bem engrenada.

Apesar da duração um pouco excessiva - duas horas -, ‘América' é um filme que entretém, agarra e agrada. Tem uma boa fotografia (de Carlos Lopes, o mesmo director de fotografia de ‘Alice') - que valeu o prémio na sua categoria no IndieLisboa (depois do troféu de Melhor Realizador, em Sófia, na Bulgária), tem encantadores cenários burlescos, e um bom elenco. 

E é um um postal irónico sobre o nosso cantinho à beira-mar plantado. O filme faz um retrato pitoresco e irónico de um Portugal real nada apelativo nem para quem chega de fora, dos países distantes do Leste, à procura de um 'El Dorado' que não mora aqui, neste lugar onde o rio encontra o mar ali na Cova do Vapor.

Um registo desencantado que encanta quando nos concentramos no legado que representa: é o último filme de Raul Solnado, famoso humorista que faleceu (em Agosto de 2009), antes de ver o filme completo. Onde se despediu da representação com uma personagem que em nada dá vontade de rir...  

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