‘Jardim Zoológico de Cristal’ está em Lisboa até dia 12 de Janeiro, no âmbito da digressão nacional que está a realizar desde Outubro do ano passado. A seguir vai para Portimão
É uma peça autobiográfica de Tennessee Williams e antes de ser um texto para a cena foi um conto chamado ‘Retrato de uma Rapariga feita de Vidro’ (na tradução portuguesa publicada recentemente pela Assírio Alvim) e, mais tarde, argumento para um filme.
O autor, que gostava de trabalhar e retrabalhar os seus textos – mesmo aqueles que já tinha publicado – usou a própria família como fonte de inspiração para escrever ‘Jardim Zoológico de Cristal’, peça que acaba de chegar a Lisboa numa encenação de Nuno Cardoso e que depois da curta carreira no Teatro Taborda (onde estará até dia 12), segue para o Tempo de Portimão, para uma representação única, dia 23.
Aqui se conta a história de uma família disfuncional do sul profundo dos Estados Unidos. ‘Amanda’ (Maria do Céu Ribeiro) é uma matriarca que, sentindo ter falhado a sua própria vida, se projecta na sua filha, ‘Laura’, para conseguir, através dela, uma segunda oportunidade para ser feliz.
Mas ‘Laura’ (Micaela Cardoso), não só tem um defeito físico – é coxa – como sofre de uma terrível timidez e depois de ter desistido do liceu desistiu também da escola profissional. O que resta quando uma mulher não tem aptidões nem para trabalhar nem para arranjar um marido que a sustente?
No meio das duas mulheres está ‘Tom’ (Luís Araújo), o irmão de ‘Laura’ que alimenta a família com um emprego num armazém, enquanto escreve poemas às escondidas e sonha com uma vida diferente.
Este drama familiar atinge o clímax quando a mãe convence ‘Tom’ a trazer a casa um amigo para namorar ‘Laura’ e esse amigo, ‘Jim’ (Romeu Costa) revela ser uma paixão antiga da pobre jovem, desencadeando uma crise.
Com este material para trabalhar, era grande o risco de se cair no registo melodramático mas o encenador decidiu seguir as indicações do próprio Tennessee Williams – que advogava um teatro não realista (conforme se lê no programa do espectáculo) – e usou vários recursos de distanciação para nos dar a ler esta história de forma mais racional e menos emotiva.
O primeiro é o próprio cenário: as personagens encontram-se dentro de uma caixa ou jaula, quais animais de um jardim zoológico, elas próprias frágeis como vidro. Não há aqui qualquer ilusão de realidade.
Em cima do palco, há um ecrã onde são projectadas as palavras-chave da peça. Os próprios actores são agentes de distanciação: ‘Tom’ assume frequentemente a função de narrador; os outros actores ora actuam e contracenam, ora ficam paralizados em cena enquanto a acção prossegue.
Finalmente, a música, de carrossel, sublinha o patético desta coreografia de quatro figuras, cada uma delas infeliz à sua maneira.
O resultado não podia deixar de ser triste mas é, acima de tudo, uma forma diferente de ver Tennessee Williams. O que já não é dizer pouco.
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