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Correio da Manhã

Cultura
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RIR E CHORAR COMO NA VIDA

No intervalo, uma senhora comentava para a companheira: “Olha, isto parece eu e o meu António. De costas voltadas um para o outro, eu falo e ele ouve.”
O espectáculo em causa, “Oh que ricos dias”, construído a partir da peça de Samuel Beckett, é a mais recente produção da Companhia Teatral do Chiado e a sua estreia assinala duas circunstâncias felizes: a reabertura do Teatro Estúdio Mário Viegas (finalmente!) e o regresso aos palcos da actriz Lia Gama.
25 de Maio de 2003 às 00:00
Ainda sob a direcção artística de Juvenal Garcês, que assina a encenação do espectáculo, a companhia “ressuscitou” com uma peça cujo sucesso depende, em grande medida, da qualidade da protagonista feminina.
Aqui não há muito por onde “inventar”: cenário e figurinos estão determinados à partida, definidos no texto de Beckett, e a única área artística onde se pode realmente mexer é a interpretação. Neste aspecto, Lia Gama foi uma escolha feliz.
METÁFORA DA VIDA
“Oh que ricos dias” acompanha o percurso de uma mulher, Winnie, que se enterra progressivamente num monte de areia mas procura ignorar o facto, falando ininterruptamente de assuntos corriqueiros, numa sequência de frases feitas que fazem rir o público. Sobretudo tendo em conta o contexto absurdo em que a mulher se encontra.
Lia Gama conseguiu apropriar-se completamente do texto, dando sentido às banalidades da sua personagem, que não têm uma sequência lógica mas reflectem o estado febril da sua cabeça, o descontínuo dos seus pensamentos.
A interpretação da actriz – tendencialmente cómica na primeira parte do espectáculo e dramática na segunda – tem precisamento o efeito que se pretende: faz rir da verborreia ridícula de Winnie, e ao mesmo tempo que desperta a nossa empatia pela sua tentativa, fútil, de iludir a morte.
Ao seu lado está essa personagem-mistério que dá pelo nome de Willie, um homem que mantém a sua mobilidade física embora quase já não consiga falar. Neste espectáculo, é interpretado por Alberto Villar.
Beckett concebeu “Oh que ricos dias” como uma metáfora à vida. Todos caminhamos, lentamente, para a morte, embora as palavras nos sirvam para esquecermos momentaneamente essa fatalidade. Sabendo que Beckett era um dos dramaturgos preferidos de Mário Viegas, a escolha do autor é homenagem da companhia ao seu fundador. Mesmo antes do espectáculo começar, ainda temos oportunidade de ouvir o saudoso Mário dizer um poema de Mário Cesariny sobre as palavras. Tudo em família.
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