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Correio da Manhã

Cultura
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Rodrigo Areias: "Sempre quis fazer um western" (COM TRAILER)

Rodrigo Areias estreia amanhã 'Estrada de Palha', filme sobre um homem que regressa ao Portugal do século XX para vingar a morte do irmão.
4 de Julho de 2012 às 01:00
Rodrigo Areias teve apenas 50 mil euros para a rodagem
Rodrigo Areias teve apenas 50 mil euros para a rodagem FOTO: D.R.

Correio da Manhã - Como surgiu a ideia de fazer este western atípico?

Rodrigo Areias - Sempre quis fazer um western. Isso faz parte do meu crescimento enquanto espectador de cinema.

- Têm muita força neste filme os intertítulos com as citações de Henry David Thoreau, a partir do seu manifesto ‘Desobediênca Civil’. É algo com uma grande actualidade nos dias em que vivemos...

- Quis fazer o filme em várias camadas. Temos uma primeira narrativa muito simples, de um tipo que vem para vingar a morte do irmão; depois um segundo nível com os intertítulos; e um terceiro nível a ligar tudo isto. Há muitos pormenores para quem for ver o filme mais do que uma vez.

- Onde decorreram as filmagens?

- Fizemos o percurso da Serra da Estrela até ao Alto Alentejo. Depois seguimos por Marvão e Castelo de Vide.

- E quanto custou a rodagem?

- Nós recebemos 50 mil euros.

- Como foi possível fazer o filme com esse dinheiro?

- Significa que ninguém recebeu dinheiro numa equipa mínima, de oito pessoas. É impensável fazer todos estes quilómetros, com animais, roupas e armas de época, durante três semanas e meia.

- O Vítor Correia é incrível no papel principal...

- Passou a ser um herói. Identifico-me muito com o seu lado mais radical. É de um outro tempo e isso é muito intenso. Está espantoso na cena de abertura do filme, na Lapónia, no norte da Finlândia, a subir uma montanha com um metro e meio de neve. Quando chegou ao cimo estava quase em hipotermia. Tinha gelo até nas cuecas... Os finlandeses alucinaram com a violência daquela cena.



- E qual foi a intenção de o Ângelo Torres só falar crioulo?

- Temos este negro, com um fraque, uma cartola, mas todo esfrangalhado, pois está preso há muito tempo. É claramente um tipo não criminoso, preso apenas por ser diferente, por ninguém conseguir falar a língua dele. E essa é a forma de encurralarmos aquilo que é diferente.

- O que levou à escolha do título ‘Estrada de Palha’?

- Há duas razões: o livro ‘A Transumância do Gado Serrano’ explica como os rebanhos desciam no Outono para o sul e subiam na Primavera outra vez para a serra. Isso foi o motor económico da Península Ibérica durante cinco séculos. Mas é também a metáfora do próprio filme, pois nas entradas e saídas das localidades por onde passava o gado, colocava-se palha por cima dos dejectos dos animais e do sangue. No fundo, uma camada que escondia o que não se quer ver. É algo tipicamente português.

- Enquanto cineasta e cidadão, como vê esta ideia actualizada de desobediência civil? É um defeito da democracia?

- O problema da democracia somos nós. Nós os que achamos que a democracia é a terceira pessoa. E que a culpa é sempre de outro. Do que matou uma velhinha brasileira para ficar com alguma coisa, do outro que mandou construir um centro comercial. O problema é que esses são os que votámos para ficar lá, sejam eles do partido A ou do partido B. A culpa é sempre de outro.

- A nova Lei do Cinema vai ajudar a mudar o presente e o futuro do sector?

- Era obrigatória e vem em atraso. Muitas coisas deveriam estar definidas, como as contribuições dos canais de televisão por cabo. Deveriam ter ser sido aplicadas há muito.

- É a melhor lei?

- Pode não ser a melhor lei, mas é a que temos hoje. O que é estranho, no mínimo, é ter sido aprovada apenas com os votos a favor do PSD e do PP. Revolta-me perceber como a oposição, que deveria ter uma posição muito mais activa, faz birra. Sobretudo quando esta tentativa vai ao encontro daquilo que tinha sido definido. Obviamente que falta a discussão e a regulamentação. Tudo aponta para que seja aprovada na próxima sexta-feira. Depois veremos o que vai acontecer ao cinema português.

- Quais são os próximos projectos?

- Para filmes sem dinheiro há sempre projectos (risos). Agora tenho um, ligado a Guimarães 2012, sobre a obra do Fernando Távora. Vamos fazer um ‘film noir’, em que o Vítor Correia vai ser o nosso Bogart. Tem um nome provisório, que é ‘Da Organização do Espaço’, do Fernando Távora. O meu objectivo é filmar a obra do Fernando Távora como uma personagem. A arquitectura será a paisagem.

PERFIL

Rodrigo Areias nasceu há 33 anos em Guimarães. 'Estrada de Palha', protagonizado por Vítor Correia, Ângelo Torres e Nuno Melo, é o seu filme mais ambicioso até agora.

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