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Correio da Manhã

Cultura
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Romance da vida a pretexto da morte

Não devíamos temer tanto a morte porque a eternidade seria infinitamente pior”: José Saramago sobre ‘As Intermitências da Morte’, o romance ontem oficialmente apresentado em Lisboa perante uma plateia de incondicionais que esgotou o Teatro Nacional de São Carlos.
12 de Novembro de 2005 às 00:00
O escritor era um homem visivelmente emocionado entre leitores, tradutores e editores internacionais chamados a participar no lançamento nacional do seu mais recente livro (ed. Caminho).
A apresentação bilingue (português e espanhol) esteve a cargo de Bárbara Guimarães e Pilar del Rio, mulher e tradutora do escrito. Ambas regressaram mais tarde com nova missão: a leitura de um excerto da obra nas respectivas línguas, estando a versão brasileira reservada à actriz Christiane Torloni. Os tradutores Xavier Pàmies (catalão) e Rita Desti (italiano) fizeram outro tanto e a violoncelista Irene Lima deu-nos os primeiros dez minutos da ‘Suite nº. 6’, de Bach, banda sonora do romance se ele tivesse uma.
Surpresas bem guardadas e melhor recebidas, à semelhança da que juntou no mesmo palco o director da Greenpeace Internacional, associação apadrinhada por Saramago no sentido de fazer imprimir todos os seus livros (inéditos e reedições) em papel “amigo do ambiente”.
A ANGÚSTIA DO TEMPO
O sucessor de ‘Ensaio Sobre a Lucidez’ é um romance sobre a vida a pretexto da morte. É mais: um ensaio sobre a importância de se saber mortal e de como José Saramago não sofre da angústia do tempo, não da forma clássica: tanto para fazer e só uma vida para viver...
Este é o livro do que acontece quando ‘para sempre’ não são as duas últimas palavras de um conto de fadas mas as duas primeiras de um pesadelo de carne e osso: “a morte arruma a foice”.
E, impedido de morrer, o que aconteceria com o corpo e o envelhecimento, a doença e a dor? E a política, a religião, a economia, os velhos... “Que vamos fazer com os velhos?”, pergunta-se.
“No dia seguinte ninguém morreu”, a frase que serve de princípio e fim ao texto, encerra metáfora de mão-cheia a desenvolver em três actos: primeiro, a morte não quer matar; depois, a morte só mata com aviso de recepção; terceiro e último, a morte investiga a devolução à procedência da carta que tem a cor das violetas e segue com oito dias de antecedência por forma a permitir aos notificados aproveitar a vida enquanto dura mas, como usa dizer-se, é pior a emenda que o soneto...
Saramago, de 82 anos, está para durar e escrever. Desassombradamente. E até ensaia reaproximação à poesia abandonada, um dia, a favor da prosa: “Pela primeira vez na sua vida a morte soube o que era ter um cão no regaço”.
A PALAVRA ÀS APRESENTADORAS
“Estamos com o 38.º livro de José Saramago que, felizmente, começou a publicar tardiamente. Ainda bem que o fez porque se o tivesse feito antes teria feito de nós leitores monogâmicos... Que pensará disto a Pilar?”. Bárbara Guimarães - Jornalista
“Penso que não sei se seríamos mais monogâmicos mas, houvesse mais livros em casa e havia, certamente, menos divórcios... Pelo menos, não havia necessidade de se sair tanto atrás de outros interesses, literários ou não”. Pilar del Rio - Tradutora
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