As 20 páginas do romance sobre o comércio de armas que José Saramago estava a escrever quando morreu, a 18 de Junho de 2010, serão publicadas em 2012, disse à agência Lusa o editor do Nobel português, Zeferino Coelho.
As 20 páginas do romance sobre o comércio de armas que José Saramago estava a escrever quando morreu, a 18 de Junho de 2010, serão publicadas em 2012, disse à agência Lusa o editor do Nobel português, Zeferino Coelho.
A decisão coube à viúva, Pilar del Rio, e aos editores da obra de Saramago em vários países. Falta agora decidir sob que forma serão publicadas as páginas do romance a que o escritor chamou "Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas!".
Saramago estava a escrevê-lo a bom ritmo, depois de ter estado algum tempo ‘encalhado’ na escolha do título - que escrevia sempre antes dos romances. Desta vez, a escolha recaiu num verso do poeta e dramaturgo Gil Vicente e, a partir daí, o autor de ‘Memorial do Convento’ e ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’ dedicou-se à história.
"Vai ser publicado, mas não pode ser publicado como um livro que não é. Do romance, que iria ter provavelmente umas 300 ou 350 páginas, o que está ali são 20, não mais que isso, se é que tem 20... É apenas o início do livro", explicou o editor da Caminho, chancela que publica toda a obra do autor em Portugal desde os anos 1980.
"Não pode ser publicado como o último livro de Saramago, porque não é, não chega a ser. Agora, é um belíssimo texto e é curioso... e os leitores de Saramago, que são muitos, devem ter acesso a ele", defendeu.
Em Outubro de 2009, no lançamento em Lisboa do seu anterior romance, ‘Caim’, o Nobel da Literatura 1998 revelara já que o novo livro trataria da indústria de armamento.
"Todos aqueles que me conhecem bem sabem que sempre me tenho interrogado: porque é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas? Nunca... Serão aqueles operários menos conscientes?", inquiriu, apontando essa pergunta como ponto de partida para a história que queria contar.
Procurou durante algum tempo, sem êxito, um episódio que pensava ter lido em ‘L'Espoir’, de Malraux, ou em ‘Por Quem os Sinos Dobram’, de Hemingway, passado na Guerra Civil de Espanha, sobre "um morteiro que não rebentou e que tinha um papel dentro, escrito, em português, que dizia: 'Esta bomba não rebentará'".
Era esse o impulso inicial para o livro: "Que uma classe operária tão capaz de lutas não tenha conseguido entrar nos portões de uma fábrica de armas. Faz-se o que se pode contra a droga, faz-se o que se pode contra a gripe A... e o que é que se faz contra o comércio de armas? Nada", observou, na altura.
"Assim como Deus não é de fiar, os exércitos também não. O cidadão deve exercer a sua parte de vigilante e não se deixar levar pela banda de música ou pelo seu porta-estandarte", defendeu.
No grande auditório sobrelotado da Culturgest, Saramago admitiu, então, que gostaria de ter escrito "um livro a que pudesse chamar'O Livro do Desassossego'".
Mas "já está, o Fernando Pessoa antecipou-se... mas o meu desassossego não é exactamente o dele. Como eu não vivo desassossegado, quero desassossegar", comentou, citando em seguida um verso de Camões, que diz "Estavas linda, Inês, posta em sossego" e interrogou-se: "O que é isso de 'posta em sossego'? Quer dizer, cortaram-lhe o pescoço, ficou 'posta em sossego'!" - a plateia deu gargalhadas e aplaudiu de pé.
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