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Correio da Manhã

Cultura
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Ron Howard: “Ao volante não sou um problema para a polícia”

Falámos com Ron Howard, um realizador conhecido por conseguir fazer magia no cinema. Seja a fazer astronautas flutuar (‘Apollo 13’), recriar paredes de chamas (‘Mar de Chamas’) ou mesmo cenas de boxe a sério (‘Cinderella Man’). O que não sabíamos é que era capaz de fazer sentar o Poderoso Thor no ‘cockpit’ de um Fórmula 1... Pelos vistos conseguiu. E com um filme emotivo, que ultrapassa largamente o público interessado em Fórmula 1. Estreia esta quinta-feira nas nossas salas de cinema.

2 de Outubro de 2013 às 12:03
O realizador Ron Howard, fotografado em frente a um cartaz promocional de 'Rush - Duelo de Rivais'
O realizador Ron Howard, fotografado em frente a um cartaz promocional de 'Rush - Duelo de Rivais' FOTO: EPA

Correio da Manhã – Quem diria que o iríamos ver a realizar um filme sobre Fórmula 1...

Ron Howard – É verdade. Segui a minha curiosidade e acreditava que poderia ser uma experiência cinematográfica intensa. A ideia era tentar o lado visceral e intenso do ambiente da Fórmula 1, mas mantendo um lado emocional muito ligado às personagens. Sobretudo porque esta história verídica entre os pilotos James Hunt e Niki Lauda era tão intensa dento e fora da pista. Como história, percebi que era uma dádiva.

- Foi difícil?

- Sim, é muito difícil recriar este mundo. Hoje o mundo da Fórmula 1 é tão complexo que não é possível fazer o que faz o John Frankenheimer nos anos 60 (‘O Grande Prémio’, 1966) e seguir as corridas captando esses planos. O que fizemos foi recriar tudo, recorrendo a imagens de arquivo, que usámos com muito cuidado.

- É difícil distinguir quais são as imagens de arquivo...

- Existem até alguma imagens que muitos pensam ser de arquivo, mas na verdade não são. O que eu quis foi criar uma experiência moderna deste ambiente. E com a ajuda do meu diretor de fotografia, Anthony Dod Mantle (venceu o Óscar por ‘Quem Quer ser Bilionário?’, em 2008) que escolheu apenas as imagens de arquivo que podiam estar ao nível daquilo que pretendíamos. E mesmo assim, contar a nossa história.

- É, de certa forma, um filme bastante sexy. Era algo que procurava obter?

- Essa sensualidade descreve o filme. Falamos, afinal, do James Hunt, que era um indivíduo muito sexy. Para ele, o sexo era uma forma de expressão, tanto quanto as corridas. Queríamos que isso existisse, mas sem tomar conta do filme.

- Esse ano, 1976, foi um marco para a modalidade mas muitas pessoas já não se lembrarão da incrível história de rivalidade entre os dois homens. De que forma se envolveu com a história e até que ponto o Niki Lauda colaborou também?

- Foram precisamente os acontecimentos desse ano sensacional, do que se passava dentro e fora da pista, que me levaram a fazer este filme. Tinha a enorme ambição de a poder partilhar com o público, em todo o pormenor. E fiquei muito agradado com a reação do Niki. No início, ele estava um pouco entusiasmado com a ideia, porque há aspetos do seu acidente, a sua recuperação e o seu regresso, que eram difíceis de encarar. Até porque ele não se lembra de grande parte daquilo que aconteceu. Nessa altura, este estava determinado em viver e ganhar de novo e ficou emocionado com a reação que toda a gente teve perante a sua atitude. Agora já viu o filme três vezes e ficou fã. Respeita a autenticidade da obra. Agora que consegue ter alguma objetividade, aprecia a história.

- O Nicki Lauda que contribuiu muito para a segurança que existe hoje na F1, e que na altura não existia...

- Isso é verdade. Havia algumas pessoas que deram um outro significado, mais rigoroso, à palavra coragem. Era quase um movimento.

- Até que ponto as coisas poderiam ficar perigosas durante a rodagem?

- A verdade é que no primeiro dia de testes de rodagem, e já depois dos atores terem passado por uma escola de condução a alta velocidade, numa manobra, a roda do carro do Daniel [Brühl] soltou-se e veio a rodopiar pelo ar. Isto para dizer que as réplicas que construímos mantém ainda um certo elemento de risco.

- É verdade que para si a magia do cinema tem sido constante, mas conseguir colocar o Thor dentro de um cockpit deve ter sido um desafio...

- Foi ele quem fez o trabalho todo. Aqui não houve magia em colocar o Chris Hemsworth num carro de Fórmula 1. Ele próprio gozou com a ideia, mas garantiu-nos que, tendo a mesma altura do James Hunt, estaria com o mesmo peso no dia das rodagens.

- No final do filme quando vemos imagens reais do James Hunt percebemos como a escolha foi acertada.

- Acho que não poderíamos ter escolhido melhores atores. Não só fisicamente, mas com a intensidade que se vê no filme.

- Foi complicado obter as imagens de arquivo?

- Não existe muito material sobre as corridas dos anos 70, e muitos dos formatos usados então estão hoje completamente obsoletos. Não queríamos que isso afetasse o visual do filme. Mas a fotografia reproduz bem esse ambiente. Usámos uma fração dessas imagens, muitas vezes combinadas com imagens recriadas. Foi um trabalho experimental, que acabou por ter um resultado eficaz.

- Quando vai ao volante, gosta de acelerar?

- Por acaso tive agora algumas lições de condução em pista, mas não posso dizer que seja um bom piloto. Ao volante, não sou um problema para a polícia.

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