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Convém lembrar o potencial – e distinto – auditório do choque térmico que representou a edição, já lá vão uns vinte anitos de ‘Swordfishtrombones’ (1983) e de ‘Rain Dogs’ (1985). Para os fanáticos do piano alcoólico e do ‘alter ego’ de Charles Bukowski, foi a decepção. Para os fundamentalistas do modernismo ‘noise’, valeu a ascensão de Tom Waits ao estatuto de Deus vivo.
Para os outros, tratou-se apenas de uma revolução de comportamentos e estéticas que, talvez necessária, não baixava a bitola do período ‘beatnik’ e que tinha a vantagem de apresentar novos desafios. Ora, este preâmbulo baseia-se na circunstância de ‘Real Gone’, o novíssimo disco de Waits, primeiro depois da dose dupla (‘Alice’ e ‘Blood Money’) de 2002, estar muito próximo um terceiro andamento daquela dupla notável da década de 80.
Aos pouco temerários, recomenda-se a entrada no CD pela terceira faixa, ‘Sins Of The Father’, mistura de ‘blues’ e ‘reggae’ exclusiva de Waits. Conquistados pela guitarra e pelo banjo do regressado Marc Ribot, figura maior, lado a lado com o baixista Larry Taylor, deste álbum que elimina sumariamente o uso do piano? Demos, então, um passo atrás, até ‘Hoist That Rag’, ritmo cubano para voz desbragada e rouca, para seguir em frente: ‘Shake It’ parece um ‘rockabilly’ de almas do outro mundo; ‘Don’t Go Into That Barn’ mantém o clima fantasmagórico, mas agora ao serviço do ‘blues’ mais cru e cruel de toda a carreira do assinante.
Há, finalmente, tempo para respirar de alívio em ‘How’s It Gonna End’ que, arranjo e voz arranhada à parte, remete para o passado remoto de Waits. O toque latino, aqui mais próximo do México e das ‘rancheras’, regressa em ‘Dead and Lonely’, duas guitarras nas mãos de Ribot e da primeira figura, tudo para consumar uma pérola. Em ‘Circus’, com sininhos e ambiente de caixa de música, Waits não canta, fala – não é obrigatoriamente uma desvantagem…
‘Trampled Rose’ é outra melodia radicalmente despojada, ‘Green Grass’ parece escrita para banda sonora de um ‘western’, ‘Baby Gonna Leave Me’ e ‘Clang Boom Steam’ (esta só com voz e percussão não identificada) mostram a faceta industrial do autor, ‘Make It Rain’ é um ‘blues’ puro, se considerarmos este homem capaz de algo puro, e ‘Day After Tomorrow’ é um ‘folk’ de cor política, uma canção de soldado com saudades de casa. Dylan não faria melhor. O bónus solta, uma última vez, as feras.
Este álbum não se explica. ‘Real Gone’ foi executado sem regras de duração, sem limites para o diletantismo estético do seu criador. Ele parece ter-se divertido à brava. Não é pecado, sobretudo porque nos surpreende, encanta, assusta e convence. Tudo de seguida, o que é cada vez mais raro. Faça-se justiça.
Depois de ‘Painting With Words and Music’ e ‘Woman Of Heart and Mind’, aí está um novo DVD com JONI MITCHELL no centro das atenções: em ‘Shadows and Light’ celebram-se os 25 anos da sua digressão com os virtuosos Pat Metheny, Lile Mays, Don Alias e Michael Brecker, além do malogrado Jaco Pastorius. Um concerto em tons de ‘jazz’, magnético, com versões únicas de algumas das suas melhores criações. Aviso: o alinhamento não corresponde ao do CD – tem canções a mais e canções a menos. Nada mau.
O filme ‘De-Lovely’, de Irwin Winkler, tem como estrelas Kevin Kline e Ashley Judd, nos papéis de Cole e Linda Lee Porter. No CD com as canções de Porter, os actores cantam, mas há uma chuva de estrelas: Robbie Williams, uma inexcedível e inesperada ALANIS MORISSETTE, Sheryl Crow, Elvis Costello e Diana Krall, entre outros. Vai voltar a febre de ‘Red Hot & Blue’? Com momentos perfeitos como ‘Night and Day’ ou ‘Let’s Do it (Let’s Fall In Love)’, é mais que pedagógico – é um prazer infinito.
Se não fossem alguns esforços isolados, conseguidos por mérito do seu virtuosismo de guitarrista, quase apeteceria dizer que MARK KNOPFLER não acerta um há vinte anos (‘Brothers In Arms’, Dire Straits, 1985). Em ‘Shangri-La’ parece estar a viver o seu sonho americano, hesitando entre reproduzir J.J. Cale e o seu country singular ou copiar Eric Clapton e os seus ‘blues’ únicos. Nessa hesitação, Knopfler rende-se a uma produção chata de certinha – tudo bem feitinho, mas nada de alma. Fatal.
Até voltaram todos – Basia Trzetrzelewska, Mark Reilly e Danny White – ao local do crime, um colectivo de swing e Bossa chamado MATT BIANCO. O problema é que passaram mais de duas décadas desde os dias em que este som era sincero e contagiante. Muita e boa água correu sob as pontes, o que torna ‘Matt’s Mood’ um álbum condizente com a música de ‘hall’ de hotel. O desastre total mora em ‘Ronnie’s Samba’, carregado de sofisticação de pacotilha. Veteranos por veteranos, antes Manhattan Transfer.
MAS AS CRIANÇAS SENHORES?
Os DURAN DURAN voltam ao activo com a edição de um novo álbum amanhã. Mas, para já, o que aqui os traz é o facto de Simon Le Bom e Nich Rhodes figurarem na lista de estrelas que ‘baptizaram’ os seus rebentos com estranhos nomes… para não ir mais longe. Saffron Sahara e Tatjuana Lee Orchid, respectivamente para os dois Durans.
Outros exemplos: Dweezil, Moon-Unit e Diva Muffin, filhos de Frank Zappa; Dandelion, de Keith Richards (Rolling Stones); Blue Angel, de The Edge (U2); Dusty Rain, de Vanilla Ice; Doremi, de Justin Hayward (Moody Blues); Cosma Shiva, de Nina Hagen; Jermajesty Jackson, de Jermaine Jackson; Heavenly Hiraani Tiger Lily, de Michael Hutchence (INXS); Elijah Patricius Bob Guggi Q., de Bono (U2); God, de Grace Slick e Paul Kantner (Jefferson Airplane), Apple Blythe Alison, de Chris Martin (Coldplay) e Gwyneth Paltrow. Nem as crianças escapam… E é para sempre.
KIRSTY, A AZARADA
Hoje mesmo há uma reunião em Londres com entrada livre para ouvir os discos e falar da vida de uma mulher que, azares à parte, ajudou a deixar marcas na música pop e rock: KIRSTY MAC COLL. Tudo porque ela completaria hoje 45 anos, se um barco a motor não a tivesse morto a 18 Dezembro de 2000, no mar quente de Cozumel, México.
Apesar de ser uma notável autora e compositora, a filha do cantor folk irlandês é sobretudo lembrada pela sua versão de ‘A New England’, original de Billy Bragg, e pelo seu dueto com Shane MacGowan (Pogues), na eterna ‘Fairytale Of New York’. Se houvesse justiça, os seus álbuns ‘Kite’ (1989), ‘Titanic Days’ (1994) e ‘Tropical Brainstorm’ (2000) continuariam a ouvir-se como sinais de diversidade estética e coerência política – era militante da esquerda britânica. Foi casada com o produtor Steve Lillywhite. Paz à sua alma e, se possível, vida à sua música.
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