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Correio da Manhã

Cultura
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Ruiz roda folhetim em tom de sonho


No Palácio dos Arcos, em Paço de Arcos, Lisboa, faz-se cinema em português... mas segundo a direcção de um famoso chileno.
28 de Dezembro de 2009 às 00:30
Maria João Bastos esteve a filmar este fim-de-semana, em Paço de Arcos
Maria João Bastos esteve a filmar este fim-de-semana, em Paço de Arcos FOTO: Natália Ferraz

Por aqui, Raúl Ruiz filma um regresso às páginas de ‘Mistérios de Lisboa’ (1854), de Camilo Castelo Branco, para recontar a novela de época numa longa-metragem e uma mini-série para a RTP.

Logo à entrada do décor, tropeça-se no mundo dos sonhos de Ruiz, nos charriots que servem de carris ao jovem João Pedro Arrais, 14 anos, que ‘delira’ à volta da câmara, a indiciar o pesadelo que está a viver. Ao fundo, minutos depois, Maria João Bastos (mãe da criança) espreitará por entre uma cortina. Será sonho ou realidade este que é o primeiro encontro de uma mãe com o filho que lhe foi arrancado à nascença e ela julgava morto?

"É uma cena emocionalmente muito forte", diz ao CM a actriz, já na pele de Ângela de Lima, uma das figuras centrais desta trama. A cena, no ecrã, resultará distorcida, bem diferente da realidade que ali se vê, e deixará o espectador tonto pelos efeitos da lente. "Estou encantada com os planos surreais do Ruiz. É um génio."

A história cruza várias estórias. Como explica Adriano Luz, de batina de padre Dinis vestido, ele que é também um dos epicentros da acção. "É uma tragédia com muitas personagens que se tocam e o padre é alguém que traz consigo a morte. Mas uma morte romântica, quase em sinal de redenção."

Romance trágico intemporal, ‘Mistérios de Lisboa’ atravessa o século XIX e várias gerações, interlaçando enigmas e segredos profundos que se vão desvendando. Filhos bastardos condenados à morte, duelos de honra, fortunas roubadas, vinganças doentias...

Poético como os seus planos, assim é Ruiz também no décor. Tal qual a sua filmografia que exalta um olhar que cruza o real e o imaginário.

"Estou interessado na cultura popular, de folhetim, do kitsch", confirma o realizador.

‘Mistérios de Lisboa’ roda na capital até Março e, antecipa já Ruiz, "termina com serenidade e ironia. O meu desafio não é fazer o melhor filme português, mas sim o mais português", diz quem conhece o nosso país há 30 anos e fala a língua de modo quase fluente.

MAIS PROJECTOS EM CURSO COM PAULO BRANCO

Aos 68 anos e dezenas de filmes na bagagem – entre os quais ‘Klimt’ (2006) –, Raúl Ruiz já tem na calha mais dois projectos com Paulo Branco, produtor de ‘Mistérios de Lisboa’ e de muitos filmes seus. "Queremos fazer ‘O Livro Negro do Padre Dinis’ [também de Camilo/1855] e ainda um outro filme, sobre Cagliostro, o grande mago e alquimista do séc. XVIII", revelou o cineasta ao CM.

PORMENORES

ELENCO DE LUXO

Afonso Pimentel, Adriano Luz e São José Correia são figuras centrais de uma trama trágica que conta com as participações especiais de Margarida Vila-Nova, Sofia Aparício, Catarina Wallenstein, Ricardo Pereira e o francês Louis Garrel.

QUATRO MESES A RODAR

As filmagens arrancaram em Lisboa, em Novembro, e prolongam-se até Março, com algumas cenas a rodar em França, na recta final. A produção do filme e mini-série é de Paulo Branco.

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