Em fevereiro deste ano, Salvador Sobral retirou todos os álbuns do Spotify consciente de que a decisão podia ser prejudicial para a sua carreira.
O músico Salvador Sobral vai voltar a disponibilizar os seus álbuns na plataforma de 'streaming' Spotify, "um Golias demasiado forte para enfrentar sozinho", porque precisa de "chegar às pessoas" e "vender bilhetes" para concertos, anunciou esta terça-feira o próprio.
"Vou regressar ao Spotify. Tenho recebido muitas mensagens, todos os dias, mensagens de pessoas com pena de não poder ouvir a minha música. Eu preciso de chegar às pessoas, e infelizmente o Spotify ainda monopoliza completamente a indústria da escuta de música. Eu tenho que vender bilhetes [para concertos]. Pronto, esta é a minha vida", afirma Salvador Sobral, num vídeo partilhado esta terça-feira nas suas contas oficiais nas redes sociais.
Em fevereiro deste ano, Salvador Sobral retirou todos os álbuns do Spotify - "a plataforma de 'streaming' que paga pior aos autores" e promove música criada por IA - consciente de que a decisão podia ser prejudicial para a sua carreira.
Esta terça-feira, partilhou que considera aquela plataforma "um Golias demasiado forte para enfrentar sozinho".
"Pensei utopicamente que conseguia apelar a ser um boicote coletivo de colegas, músicos, público. Mas fui com tudo e quando olhei para trás não havia ninguém", disse, salientando que os seus princípios e as razões para ter retirado a sua música "continuam as mesmas".
"Não muda nada, não mudou nada. Continuarei a fazer boicote, obviamente, enquanto utilizador. Utilizarei o Qobuz, de que tanto gosto. Mas a minha música regressará ao Spotify", referiu.
De acordo com o músico, o 'single' "A flor do recomeço", de avanço do novo álbum do músico, com o mesmo nome, com edição marcada para outubro, "também estará no Spotify".
"O disco que vem aí também. É assim, rabinho entre as pernas, bola para a frente e voltamos para o Spotify", concluiu.
Em fevereiro, em entrevista à Lusa, o músico partilhou que sobravam motivos para ter tomado a decisão que muita gente o avisou para não tomar e que tinha consciência que poderia ser "um tiro no pé" na carreira, visto que "noventa e muito por cento" dos seus ouvintes estão naquela plataforma.
"Mas eu prefiro um tiro no pé da minha carreira do que um tiro na cabeça de uma pessoa indiretamente ligado à minha música", afirmou na altura.
Na base de tudo está o facto de a plataforma "mais popular, mais conhecida do mundo e com mais subscritores" ser "a que pior paga aos autores".
"Estamos a falar de 0,003 cêntimos [por audição], que é absolutamente ridículo. Mas nós jogámos esse jogo da tirania e ninguém fala e estávamos todos no Spotify contentes de anunciar o nosso 'wrapped', mas foram-se acumulando coisas", referiu na mesma ocasião.
O investimento feito pelo diretor executivo, e cofundador, da plataforma, Daniel Ek, na empresa europeia especializada em inteligência artificial de defesa Helsing e que, para o músico, faz com que a música que lá está "esteja a financiar o negócio da morte", foi outra das razões para decidir retirar os álbuns. "Eu não quero estar associado a isso", disse.
O investimento de Daniel Ek na Helsing, feito através da empresa de captais de risco Prima Materia que o próprio fundou, levou também, por exemplo, os britânicos Massive Attack a retirarem todo catálogo da banda do Spotify em setembro do ano passado.
Ao investimento na Helsing, junta-se o facto de a plataforma ter passado anúncios de recrutamento do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, ouvidos por quem não subscreve o serviço de 'streaming'.
O ICE tem conduzido operações anti-imigração violentas em várias cidades dos Estados Unidos, nomeadamente em Minneapolis, onde agentes daquela polícia mataram a tiro dois cidadãos norte-americanos no início deste ano.
A juntar a tudo isto há ainda as músicas criadas por Inteligência Artificial (IA).
"O Spotify não quer perder a oportunidade de estar dentro deste jogo e assinou contrato com grandes editoras para fazer parte deste negócio milionário. É curioso porque o Spotify retroalimenta-se, porque tem direitos de autor nesta música de IA, e se tem muitos 'plays' acabam por pagar-se a eles mesmos com estes direitos. É uma coisa muito perversa", defendeu.
Salvador Sobral alerta que o consumo de música gerada por IA "já está a acontecer no dia-a-dia", sem que as pessoas se apercebam.
"Se ouvirmos uma 'playlist' de descobertas semanais há uma grande probabilidade de ouvirmos música feita com IA, sem sermos avisados de nada. É um ato de resistência nosso, enquanto artistas, não querermos fazer parte desta tirania digital das 'playlists' e da música feita com IA", afirmou.
Nascido em Lisboa, em 1989, Salvador Sobral editou o álbum de estreia, "Excuse me", em 2016. Em nome próprio, editou também os álbuns "Paris, Lisboa" (2019), "BPM" (2021) e "Timbre" (2023), e o EP "Sal" (2022), aos quais junta projetos em que participou com outros músicos, nomeadamente Alexander Search, projeto que toma o nome do heterónimo de Fernando Pessoa, Alma Nuestra, Noko Woi, que divide com Leonardo Aldrey, Sílvia Pérez Cruz e First Breath After Coma.
Em outubro, Salvador Sobral edita "A flor do recomeço", um álbum feito de temas inéditos da autoria de músicos brasileiros como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Chico César, Céu, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Marcos Valle e Tim Bernardes.
Aquele que é o primeiro álbum de Salvador Sobral com "composições exclusivamente brasileiras foi gravado em São Paulo e produzido pelos brasileiros Marcus Preto e Tó Brandileone, de acordo com a editora Warner Music Portugal, num comunicado divulgado em junho.
O novo trabalho foi gravado com uma banda de músicos brasileiros: Tiago Costa (piano), Fábio Sá (contrabaixo), Conrado Goys (guitarra), Sergio Machado (bateria) e Felipe Roseno (percussão).
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