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Correio da Manhã

Cultura

Saramago aplaude filme de Meirelles

Se é ou não uma adaptação fiel ao livro ‘Ensaio sobre a Cegueira’, pouco importa. Ou melhor: "É bom que o filme não tenha uma fidelidade excessiva senão está condenado. Um realizador é um criador, não um mero copista."
27 de Outubro de 2008 às 20:31
O realizador brasileiro Fernando Meirelles com o Nobel português, José Saramago, ontem, em Lisboa
O realizador brasileiro Fernando Meirelles com o Nobel português, José Saramago, ontem, em Lisboa FOTO: João Miguel Rodrigues

As palavras, sábias, são do Nobel da Literatura português, José Saramago, 85 anos, proferidas ontem em conferência de Imprensa, em Lisboa.

Saramago viu o filme ‘Ensaio sobre a Cegueira’ – a primeira versão antes da montagem final que hoje antestreia no Freeport de Alcochete – e gostou. "Emocionei-me quase tanto como quando acabei de escrever o livro", garante o autor sobre o filme homónimo do seu best-seller, realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles.

Uma cena, em especial, impressionou o Nobel: "Através de uma janela, vê-se uma fila de mulheres que vão buscar comida a troco de sexo. Está ali a evolução das mulheres, aparentemente submissas, mas carregadas de uma dignidade que o homem não conhece", especifica Saramago.

Acenaresumeoespíritode Meirelles nesta adaptação de Don McKellar (argumentista e actor no filme). "São imagens que se dissolvem no branco, desfocadas, enquadramentos errados. É como se a imagem não fosse confiável", explica o cineasta de ‘Cidade de Deus’ e de ‘Fiel Jardineiro’, para esclarecer o objectivo das filmagens. As mesmas que diariamente ia descrevendo num blogue e cujas crónicas lança agora em livro – ‘Diário de Blindness’.

Orçado em 19,8 milhões de euros e co-produzido pelo Canadá, Brasil e Japão, ‘Ensaio sobre a Cegueira’ (‘Blindness’) estreia em Portugal a 13 de Novembro. Ao espectador, um aviso: "É um filme violento, mas tinha de ser", diz Saramago. "Porém, a violência não é explícita", frisa Meirelles.

No final, fica um aplauso para este ‘murro no estômago’ que nos dá esta metáfora da cegueira temporária... e que nos faz ver mais além. Como o livro.

REACÇÕES DIVERGENTES

Ou se ama, ou se odeia. Apresentado no Festival de Cinema de Cannes, ‘Ensaio sobre a Cegueira’ foi recebido perante uma sala gélida. E não arrancou aplausos aos críticos presentes. Já no Brasil, um dos poucos países onde já se estreou (a par dos Estados Unidos), as expectativas foram excedidas. "Esperávamos 300 mil espectadores e 900 mil pessoas já foram ver o filme", contabiliza Meirelles. Ao contrário, nos EUA, a adesão tem sido fraca. "Talvez não seja o momento", diz o produtor Niv Fishman, apontando o dedo à crise financeira, a mesma pela qual Saramago culpa os bancos. Hoje, às 22h00, o filme antestreia em Alcochete. Além do autor, cineasta, produtor e argumentista, estará presente o actor Gael García Bernal.

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