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Correio da Manhã

Cultura
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SARAMAGO DIZ QUE LULA NÃO É O MESMO

O escritor português José Saramago declarou que o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva “não é a mesma pessoa” desde que ocupou o cargo, numa entrevista concedida à BBC Brasil a propósito do lançamento em Inglaterra do livro ‘O Homem Duplicado’.
4 de Setembro de 2004 às 00:00
O Prémio Nobel da Literatura adiantou que o homem que chegou à presidência “não é exactamente um duplo, mas não é a mesma pessoa”, aludindo ao facto de Lula da Silva ser um dos dirigentes históricos do Partido dos Trabalhadores, mas lembrou que “o poder transforma as pessoas”.
“Aplaudi, apoiei e todos nós festejámos a vitória de Lula da Silva. Mas neste momento sou bastante crítico, sobretudo com a política económica e com o acordo com o FMI, que tinha como condição fundamental o pagamento da dívida externa. Quando isso se converte numa prioridade, é claro que os problemas sociais vão ser relegados para segundo plano”, afirmou o escritor português.
Além da política económica, Saramago apontou ainda um dedo acusador ao facto de o chefe de Estado brasileiro ainda não ter conseguido resolver o problema da terra no Brasil nem ter posto em prática o plano ‘Fome Zero’ (duas das suas principais promessas eleitorais), além de ter indicado casos de contornos obscuros como as denúncias de evasão fiscal que recentemente envolveram o presidente do Banco do Brasil.
PURA COINCIDÊNCIA
Saramago comparou a história do presidente Lula da Silva ao argumento do seu romance ‘O Homem Duplicado’ (cuja tradução inglesa é esta semana lançada em Inglaterra), e no qual um homem descobre outro totalmente idêntico a ele mas com um passado muito diferente.
Comunista convicto, com opiniões políticas bem definidas, seria de esperar que a obra de Saramago transmitisse mensagens políticas mais claras. No entanto, o escritor justificou que a “literatura não tem de ser um panfleto’.
“Se entrar por esse caminho ninguém ganha. Não ganha a literatura, nem a causa que supostamente o panfleto quereria servir”, frisou. Contudo, o escritor disse continuar a acreditar que “a literatura vive dentro de tudo e, como tal, dialoga com tudo o que está em seu redor”.
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