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Correio da Manhã

Cultura
8

SATISFAÇÃO TOTAL

Foi grande, memorável, a despedida dos Stones de palcos britânicos, pelo menos desta “Licks Tour” que Portugal vai ver já no próximo sábado. A jogar em casa e em falta para com os seus fãs (o concerto foi a paga por um cancelamento devido a um mal-estar de Jagger), os Stones brindaram as 50 mil pessoas com um brilhante espectáculo. A todos os níveis: cénico e musical.
22 de Setembro de 2003 às 00:00
À hora aprazada (20h30), as luzes apagam-se e, ao som de “batidas cardíacas”, a excitação cresce de tom. Desdobra-se uma tela enorme ao longo de todo o palco, luzes sobem quais elevadores por cima das seis lanças apontadas ao público sobre o palco e Keith Richards é o primeiro a entrar em cena. Delírio. Para abir, “Brown Sugar” e o estádio irrompe num “bruah”. Jagger entra em palco e a excitação toma conta do estádio.
Sem demoras, e como que reiterando a intenção de fazer daquela uma noite especial, os Stones passam de imediato a “Its Only Rock and Roll”. Keith Richards dá ‘show’ e mostra que é a alma dos Stones, que tem em Jagger um autêntico animal de palco.
Entre correrias loucas ao longo do palco e uma primeira incursão na passadeira que conduz a meio do estádio, Jagger pede desculpas “por vos ter estragado o fim-de-semana” e redime-se do adiamento do espectáculo: “A culpa foi só minha”.
Depois, então, um dos mais solenes momentos da noite: Keith Richards anuncia uma canção “que não tocamos há muito”. Na verdade, segundo o CM soube por um “amigo da banda”, “Salt of the Earth” nunca havia sido tocada ao vivo. Um brinde aos fãs e porventura algo mais. É que este foi, quiçá, o último ‘show’ dos Stones em casa. Daí, também, a presença de convidados especiais, no caso os manos Young (Angus e Malcom – AC/DC), que se juntaram aos Stones para um dos mais intensos momentos do espectáculo, numa versão de “Rock me Baby”. Quatro guitarras à desgarrada, energia a rodos e um final explosivo. E muito sangue na “guelra”. Simplesmente genial.
Embalados, os Stones seguem para blues, com “Midnight Rambler” e “Tumblin’Dice”. Está-se na fase mais “cool” do espectáculo.
E nova viragem. Depois dos blues, é a vez de Keith Richards mostrar serviço, cantando. Algo arranhado ao princípio, escorreito depois, sobretudo quando pegou na guitarra e se deixou embalar pela melodia de “Sleeping Away”.
Finalizada a sua curta prestação (com Jagger ausente de palco), os Stones assinam aquele que foi o momento alto do espectáculo: “Sympathy for the Devil”, um verdadeiro delírio para os sentidos e um dos melhores exemplos da magnífica harmonia concerto/espectáculo. O palco tingiu-se de vermelho, o enorme ecrã exibe o “logo” dos Stones em fogo... que chega pouco depois, aquecendo as primeiras filas. Se o inferno é isto...então vale a pena!
PALCO SECUNDÁRIO
Outra das novidades do espectáculo consiste na utilização de um segundo palco, mais pequeno e colocado a meio do recinto (um pouco como os U2 fizeram há uns anos). Até lá chegarem, os Stones submetem-se a um banho de multidão. Keith Richards, Ron Wood, Jagger e Charlie Watts são saudados com uma das mais vibrantes ovações de que há memória. No reduzido palco, com piano e tudo, aquele que parecia ser um momento talhado para maiores intimidades, acabou, no entanto, por descambar na mais intensa desbunda, em especial com “You Got me Rocking” e, brutal, “Street Fighting Man”. Keith Richards era nesta altura o herói de serviço, por ele passando, em grande medida, os momentos de maior “arrepio”.
De regresso ao palco principal, os Stones reservam nova surpresa: “Gime Shelter”, outra das canções sacadas à poeira do baú. O pretexto para nova desbunda de guitarra, com K. Richards e Ron Wood enleados em “riffs”.
Para o final, os Stones reservam o melhor, qual boda de Canan: “Honky Tonk Woman”, “Star Me Up”, “Satisfaction” (delírio total) e, em encore, “Jumping Jack Flash”. Em Twickenham, as emoções estão ao rubro. Jagger, emocionado, troca cumprimentos, discretos, com Richards (com quem terá cortado relações, segundo fontes próximas) e descreve o cenário: “This is a fucking audience”. E foi mesmo. Os Stones provaram que são de facto a maior banda de rock and roll do mundo. A conferir, pois, então em Coimbra!
'STONEMANIA'
Paixão e dedicação aos Stones assume proporções desmedidas. Em Twickenham, o CM encontrou uma alemã, Helga, que segue Mick Jagger e pares desde que se conhece. Helga deslocou-se propositadamente de Hannover para ver o concerto de Londres, “muito provavelmente o último aqui, em casa”, lançou.
Helga já viu os Stones “45 vezes” e só nesta digressão outras oito. “Vi-os em todos os concertos na Alemanha – com os AC/DC foi ouro sobre azul – fui à Holanda também e agora estou aqui”. Já na casa dos “entas”, Helga furou mesmo a apertada segurança e conseguiu passar da bancada para o relvado, recheada de VIP onde os bilhetes custavam bem mais. Nada que impedisse Helga que, bem-disposta, só lamentava o facto de ter “perdido a namorada”, que ficou na bancada. “Mas dali não se consegue ver tão bem como daqui”, disse entre sorrisos. Questionada sobre se se deslocará a Portugal no próximo sábado, Helga não soube responder: “Não sei. Talvez. Já gastei muito dinheiro este ano atrás deles mas... logo se verá”.
APOIO AO CLIENTE
Que os ingleses são metódicos, organizados e pontuais já todos sabíamos. Agora que também disponibilizam um apoio de serviço ao cliente é que nunca tínhamos visto. Mas foi o que se passou, no sábado, nas imediações do estádio de Twickenham. Além da polícia, que tratava de toda a segurança, uns quantos indivíduos de colete verde luminoso e “customer service” escrito nas costas providenciavam toda a informação. De ‘dossier’ na mão, os simpáticos indivíduos lá iam tratando de esclarecer todas as dúvidas, especialmente no que às entradas dizia respeito. Muitos não sabiam mesmo qual o melhor caminho, mas depois de consultado o ‘dossier’, lá surgiam as indicações: “Dirija-se por ali, vire à esquerda e, se tiver dúvidas ou se se perder, consulte os meu colegas.” Organização perfeita. Talvez possamos aprender com eles.
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