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Correio da Manhã

Cultura
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Simone e a roda gigante

Simone, de Palmela, pouco mais de 20 anos e 80 centímetros, tem olhos azuis e um jeito cativante de ser. É o adulto mais pequeno do Festival do Sudoeste 2006, a decorrer nos arredores da Zambujeira do Mar.
6 de Agosto de 2006 às 00:00
Invulgarmente simpática, está na companhia de um grupo de 30 conterrâneos que a carregam ao colo ou às costas por entre as cerca de 25 mil pessoas presentes.
Licenciada em Animação Sócio-Cultural pelo Instituto Piaget de Almada, é animadora social e atleta profissional de natação adaptada, com inúmeras medalhas ganhas em primeiros lugares. O próximo objectivo é o Mundial da África do Sul. “E é para ganhar”, promete.
De calças de ganga e camisola da Itália, porque gosta de azul, diz que actualmente não tem namorado porque “isto é como o outro, não se tem, vai-se tendo”, afirma, aplaudida pelos amigos que tratam a coqueluche com carinho.
Pela primeira vez no Sudoeste, mostra-se feliz com a experiência mas lamenta que “as infra-estruturas para deficientes não sejam as melhores”, aconselhando a organização “a criar um espaço reservado para quem anda de cadeiras de rodas e gosta de assistir aos concertos”. Ela, sorriso estampado em permanência no rosto, confessa que arranja sempre solução para ver os espectáculos. “Os meus amigos andam sempre comigo ao colo ou às costas”. Foi de lá de cima que assistiu aos Prodigy, na sua opinião “o melhor até agora, porque a música está sempre a crescer”.
VIAGEM GRÁTIS
A roda gigante é a grande novidade do festival. Nas duas primeiras noites foi ela, a roda, que mais interesse despertou. Mais de 2500 pessoas por noite formaram uma enorme fila para entrar numa das 29 cabinas (quatro pessoas cada), rodando em ritmo lento, baixa velocidade para não haver surpresas nem se perder pitada do panorama global do recinto. Chegada da sua volta com o namorado e duas amigas, Lurdes Paiva, de Braga, revelava humor e satisfação: “A vida é como esta roda gigante. Lá de cima, tudo é bonito e interessante, cá de baixo, só às vezes.”
À saída todos receberam, gratuitamente, uma fotografia individual.
AMBIENTE DE FESTA
Pese embora a consternação de familiares e amigos da jovem que morreu afogada, anteontem de manhã no canal junto ao campismo, à noite, no recinto, o ambiente era de festa. David Fonseca deu um concerto irrepreensível com versões cativantes de temas de Talking Heads ou Silence 4, e os Goldfrapp trouxeram electrónica dançante, disco, glam-rock e bailarinas de biquíni e máscara de lobos que puseram uns tantos a uivar (ou seria salivar?).
Mesmo sem disco novo, os Prodigy foram a atracção do segundo dia, colocando mais de 20 mil a dançar. À entrada do recinto uma discreta folha A4 avisava: “Atenção, o espectáculo dos The Prodigy terá projectores de luz ‘strobe’, prejudicial a pessoas que sofram de epilepsia.”
'O GRANDE JOSÉ MOURINHO'
Marlon e Preetesh, os líderes dos britânicos Mattafix, receberam o CM nos camarins mas, ao contrário do que seria de prever, a conversa com estes dois jovens cuja música parece sair de um caldeirão de culturas foi sobretudo sobre futebol. Diz Marlon: “Sou do Chelsea e adoro o grande José Mourinho. Graças a ele, e ao Ricardo Carvalho, interessei-me por Portugal, pela comida portuguesa, pelos muitos portugueses que moram em Londres”. Fãs de Luís Figo – “uma lenda viva do futebol” –, Marlon e Preetesh têm consciência de que a sua música é mais conhecida do que a própria banda, o que justificam por estarem a dar os primeiros passos nos concertos aos vivo e nos discos. O que não deixa de ser curioso é que a canção ‘Big City Life’ fez sucesso antes de o grupo ter actuado ao vivo pela primeira vez.
'NÃO HEI-DE MORRER SEM LÁ IR'
Dona Lídia mora na Estibeira, aldeia mais próxima da Casa Branca, mas nunca entrou no recinto nem nas imediações “porque estão sempre a dizer para eu não andar por aqui”. Indignada, afirma: “Ora essa! Se este é o meu caminho todos os santinhos dias, enquanto Deus quiser vou continuar a passar por onde eu bem achar.” Lídia, amparada na bengala, repete que não há-de morrer sem ir ao festival. Está doente dos ossos, vai ser operada a uma mão, mas, “como o médico mandou”, faz vários quilómetros diários a pé. Subitamente, saca do bolso o telemóvel e, com ar resignado, confessa: “Tenho isto aqui mas não sei como funciona...”
CRAZY CAR E´A NOVA MODA NA ZAMBUJEIRA
Chama-se Crazy Car, mistura particularidades da moto quatro, do karting e do buggy, e é a nova moda em meios de transporte na Zambujeira. Luís Guerreiro, de São Teotónio, proprietário do curioso veículo, conta que esteve 12 anos na Alemanha, “onde havia muitos carros destes. Investi neles porque achei que podiam dar lucro. Os três que já chegaram são de um lugar mas nos próximos dias vamos ter mais de dois”. O limite de velocidade é de 80 km/h, gasta menos de cinco litros aos 100 e o preço é de 30 euros por três horas.
À MARGEM
GNR
Entre a Zambujeira do Mar e a Herdade da Casa Branca, a GNR tem passado dezenas de viaturas a pente fino e, com a ajuda de cães, procura estupefacientes. À volta, muitos sopram no balão.
CRUZ VERMELHA
Dos 600 festivaleiros que até à madrugada de ontem tinham dado entrada na Cruz Vermelha não se registaram casos graves.
ZONA VIP
Pela zona VIP circularam a actriz Margarida Vila Nova (‘Tempo de Viver’) e o apresentador de televisão Henrique Garcia.
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