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Correio da Manhã

Cultura
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SOBREVIVER À AMBIÇÃO

O primeiro impacto de "Tito Andrónico" - peça de William Shakespeare que Luís Miguel Cintra encenou e está a apresentar no Teatro Nacional D. Maria II até ao fim do mês - é o do espaço. A cenógrafa Cristina Reis aproveitou a Sala Garrett em toda a sua extensão, deixando à vista do espectador o palco inteiro e criando assim um ambiente desolador, onde as personagens parecem desprotegidas.
10 de Julho de 2003 às 00:00
 Maria João Luís e João Grosso são dois dos actores desta co-produção entre o Nacional e a Cornucópia
Maria João Luís e João Grosso são dois dos actores desta co-produção entre o Nacional e a Cornucópia FOTO: d.r.
O espaço pretende retratar Roma, cidade-símbolo de toda a ambição, local onde a justiça, a lealdade e a honra estão condenadas e só o mal e a corrupção podem imperar.
Não é possível contar, em poucas palavras, a intriga de "Tito", pois a acção é um desfilar de horrores raramente visto em teatro: aqui há assassínios, violações, mutilações e canibalismo, que se sucedem a uma rapidez impressionante e que acabam por nos deixar frios. É bem sabido que quando o horror é demasiado, perdemos a capacidade de sofrer.
O objectivo do espectáculo de Cintra, porém, não parece ser o de fazer sofrer o espectador. E um dos possíveis efeitos que tem é fazer-nos ver com outros olhos quem nos rodeia.
Imagine-se que, por alguma razão, os desejos inconfessáveis dos nossos semelhantes vinham ao de cima? O que descobriríamos? Com certeza coisas que é melhor continuar a ignorar...
E será possível sobreviver à ambição dos outros? Shakespeare dá a resposta: "A loucura fingida é a única solução dos justos."
Ao longo de quase quatro horas (o encenador usou a peça na íntegra e faz os seus actores dizerem o texto sem pressas, para que os sentidos da peça sejam perfeitamente entendidos), importa elogiar, no seu conjunto, o elenco, que conseguiu uma grande homogeneidade. Ninguém brilha particularmente (nem há papéis para isso) mas todos "vão bem".
Finalmente, os maiores elogios ao guarda-roupa de Cristina Reis: Rita Durão e Maria João Luís estão lindas.
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