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Correio da Manhã

Cultura

SOU UM HOMEM DE PAZ

Marcel Marceau regressa a Portugal mais de dez anos depois de ter encantado Lisboa e Porto. Desta vez, o maior mimo de sempre passa pelo CCB no fim do mês, para uma espécie de 'best of' de mais de cinco décadas de trabalho.
2 de Dezembro de 2003 às 00:00
Conheci a guerra, sei que é terrível e não quero que recomece, mas não vou falar do Iraque
Conheci a guerra, sei que é terrível e não quero que recomece, mas não vou falar do Iraque FOTO: Manuel Moreira
Correio da Manhã - Aos 80 anos, continua a fazer espectáculos por todo o Mundo e a ensinar a arte que popularizou. Qual é o seu segredo? Onde vai buscar a energia e a inspiração?
Marcel Marceau - É verdade que tenho muita energia. Não sei explicar. Acho que é um dom divino. Tenho bons genes. O meu pai morreu na Guerra quando tinha 48 ou 49 anos, mas a minha mãe morreu aos 94... Eu tive a sorte de não morrer aos 20 e de poder continuar a trabalhar. Hoje, dou espectáculos pelos cinco continentes e ensino, na Escola Internacional de Mimo, alunos de 15 países diferentes: portugueses, mexicanos, americanos, italianos, japoneses, irlandeses...
- Para criar novos números inspira-se no quotidiano ou na política internacional?
- O que é o quotidiano? Um grande poeta chamado Albert Camus disse que o jornalista é o escritor do momento. A arte do mimo, ou do teatro, tem a mesma função: passa a vida para o palco. Claro que o mundo mudou. Mas as guerras, a violência, a insegurança, infelizmente, continuam. Portanto, faz sentido que a personagem que crei em 1947, o Bip, continue a lutar pela paz.
- Na encenação dos espectáculos, sente a necessidade de se adaptar aos nossos dias e às novas tecnologias, por exemplo?
- Não me interessa retratar um Mundo onde as pessoas andam todas agarradas ao telemóvel e em que toda a gente usa calças de ganga. Desculpem-me, mas gosto do romantismo. De resto, o Charlot é uma personagem do passado? A arte é eterna. No meu trabalho, mostro a vida do homem, desde o nascimento até à morte; mostro a batalha entre o Bem e o Mal. Isto é um tema do passado? Não. É uma batalha que não tem fim.
- O que é que o Bip pensa da guerra do Iraque?
- Não quero falar da guerra do Iraque. Não estou aqui para falar de política. Sou um homem de paz. Quero a paz no Mundo. Conheci a guerra, sei que é terrível e não quero que recomece. Pessoas que morrem... É o mais horrível de tudo. Como artista, sou apenas testemunha do que acontece. Projecto um tipo de conhecimento sobre o Mundo, mas sempre com o silêncio. E as pessoas compreendem-me muito bem.
- Que impressão tem do público português?
- Estive cá em 1991, em Lisboa e no Porto, e tenho muito boa memória do público português. Há vários números no meu espectáculo que nunca fiz em Portugal. De qualquer maneira, os jovens nunca tiveram oportunidade de me ver... Ontem estive num programa de televisão ('Herman SIC') e o público aplaudiu-me de pé. A maioria nunca me viu, mas conhecia-me de nome. Acho que o público português ama o teatro, ama a cultura e gosta de emoções. Estou muito contente por voltar.
- Elevou a sua arte aos limites da perfeição. Como é que vê o futuro do mimo?
- O futuro da minha arte depende da escola. Os mimos que saíram das escolas são os melhores e só quando se aprende numa escola se pode ensinar. Quem nunca teve mestre, nunca será um mestre. Se a escola desaparecer, a arte fica em perigo. Neste momento, há festivais de mimo por todo o Mundo, e os antigos mimos estão a fundar as suas próprias escolas.
- Como é possível fazer um espectáculo sem proferir uma única palavra?
- Esse é o mistério da minha vida. Charlie Chaplin também não dizia nada e, na minha juventude, era um deus para mim, porque me fazia rir e chorar ao mesmo tempo. Muitas vezes, as palavras destroem a poesia das coisas.
- De tudo o que vê, a nível de espectáculos, o que é que lhe parece mais significativo nos nossos dias?
- Não tenho muito tempo para ver espectáculos porque estou constantemente a trabalhar. Às vezes espreito a televisão, onde as coisas interessantes passam a partir das duas da manhã... Há coisas interessantes a acontecerem neste momento, mas não me parece que sejam mais interessantes do que antigamente. Acho que o clássico volta sempre. Que o artista procure as suas raízes. Quem não estudar, quem não for às suas raízes, terá um futuro muito frágil.
PERFIL
Nascido em Estrasburgo em 1923, Marcel Mangel mudou o seu nome para Marceau aos 15 anos, para esconder as suas origens judias dos nazis. Engajado na Resistência Francesa juntamente com o irmão, Alain, veria morrer o pai em Auschwitz. No fim da guerra, conseguiu realizar o seu sonho: estudar a arte do mimo, em que se tornou mestre incontestado e que o tornou popular no Mundo inteiro. Actualmente com 80 anos, está tão activo como sempre.
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