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Correio da Manhã

Cultura
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Sou uma actriz universal

Juliette Binoche será, talvez, depois de Catherine Deneuve, a actriz francesa com mais experiência internacional. Talvez por isso não estranhemos vê-la no papel de uma agente secreta francesa no filme do realizador argentino Santiago Amigorena, ‘Alguns Dias em Setembro’.
13 de Setembro de 2006 às 00:00
Uma película com implicações políticas que viriam a alterar o rumo dos acontecimentos no mundo inteiro.
O filme chega amanhã às salas de cinema nacionais, quatro dias após a visita de Buinoche a Lisboa, na companhia do cineasta argentino e a convite do produtor português, Paulo Branco, para a antestreia. Antes, falara com o CM em Veneza, onde o filme foi apresentado no festival de cinema, fora de competição.
Uma coisa é certa, Juliette Binoche não considera estranho o facto de poder interpretar uma agente secreta. Pelo contrário, diz mesmo que as mulheres desempenham um papel vital na sociedade. “É um velho hábito que teremos de superar”, diz, evocando a fórmula que lhe parece adequada para recolocar o estatuto da mulher na sociedade de hoje: “Primeiro, as mulheres têm de começar a saber dizer ‘não’, para que, depois, os homens passem a encará-las de outra maneira”.
Quando lhe perguntamos se sente a responsabilidade de ser considerada uma espécie de “embaixadora do cinema francês”, a actriz, de 42 anos, corrige a expressão e sugere como alternativa “actriz universal”. Até porque não se sente demasiado presa às raízes do seu país.
Logo aos 18 anos, decidiu que queria ver alargadas as suas fronteiras: “A ideia não era tornar-me uma actriz americana, mas expandir as minhas qualidades e receber novas experiências”, recordou, sobre a decisão de enveredar também por filmes mais ‘hollywoodescos’.
Recorde-se que, apesar de trabalhar como actriz desde 1983, seria apenas com os filmes ‘Je Vous Salue Marie’ (1985) e, mais particularmente, ‘A Insustentável Leveza do Ser’ (1988), que se fez notada pela crítica internacional. Agora, dá-se ao luxo de abrandar quando considera indispensável. Logo após a rodagem de ‘Alguns Dias em Setembro’, decidiu tirar umas férias prolongadas, viajando até ao Irão e Argentina. “Senti que era a altura certa. Até porque precisava de voltar a sentir a minha família. É importante também para as crianças. Por vezes é difícil dar-lhes uma vida normal, pois andamos sempre de um lado para o outro.”
PERFIL
Juliette Binoche é uma das mais creditadas actrizes francesas. Nasceu a 9 de Março de 1964, filha de uma actriz e um escultor. Depois do polémico ‘Je Vous Salue Marie’, em início de carreira (1985), fez filmes marcantes com Krzysztof Kieslowski (‘Azul’), Anthony Minghella (‘O Paciente Inglês’ – Óscar de Actriz Secundária) ou Lasse Hallström (‘Chocolate’). Tem dois filhos: Raphaël (13 anos), filho de André Halle, mergulhador profissional, e Hannah (seis), filha do actor Benôit Magimel.
11 DE SETEMBRO VERSÃO '007'?
Talvez por ser adepto confesso dos filmes do agente ‘007’, o realizador argentino Santiago Amigorena ter-se-á sentido tentado a usar esse esboço de comparação para retratar uma história de espionagem que tem lugar uma semana antes do 11 de Setembro de 2001, o dia dos atentados terroristas que mudaram o Mundo. O registo escolhido é o de uma comédia romântica embalada com o perfume de espionagem, em que o espectador segue os passos da agente secreta Irène (Juliette Binoche), numa luta contra o tempo para encontrar Elliott (Nick Nolte), um homem que pretende saber a verdade sobre os iminentes ataques à América, e levar-lhe a filha (Sara Forestier). Uma trama familiar e política de grande intensidade onde se vai tropeçando, pelo caminho, em variadíssimas peripécias dignas do género, passadas em belos cenários das cidades enebriantes de Paris e Veneza. No final, o que se pode dizer, em resumo, é que este é um filme curioso, apesar de lhe faltar alguma originalidade. Mas digno de ser visto. Tal como Juliette... sempre soberba.
'FIQUEI FASCINADA COM GUIÃO' (Actriz protagoniza ‘Alguns Dias em Setembro’)
Correio da Manhã – O que a atraiu neste papel?
Juliette Binoche – Quando li o guião, fiquei fascinada pelo universo de Santiago Amigorena – pelas ligações políticas, pela poesia e pelas relações que existiam entre ambas e eu mesma.
– Este não deixa de ser um filme com um tema surpreendente, pois lida com a proximidade do 11 de Setembro...
– É verdade, mas no entanto gostei do lado das questões internacionais que o filme levanta. Ainda não existem muitos filmes sobre o 11 de Setembro ou, pelo menos, com as questões do Médio Oriente e o Ocidente. Enquanto tivermos petróleo, durante os próximos dez anos, as coisas serão assim.
– Como foi trabalhar com o Paulo Branco, produtor de ‘Alguns Dias em Setembro’?
– [Risos] Quanto se está a trabalhar com ele, não se pode dizer que não. Mas quando não está… podemos vingar-nos… [risos]. Não, a sério, foi um prazer trabalhar com o Paulo.
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