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Correio da Manhã

Cultura
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SOU UMA MULHER COMUM COM UMA PROFISSÃO GLAMOROSA

Na próxima quinta-feira, Fafá de Belém apresenta no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o seu novo trabalho, ‘O Canto das Águas’, num espectáculo que se repete sábado e domingo no Casino da Póvoa de Varzim. A cantora falou ao CM.
4 de Novembro de 2003 às 00:00
- Correio da Manhã - Que tipo de espectáculo vamos poder ver no Coliseu dos Recreios?
- Fafá de Belém - É um espectáculo de músicas amazónicas com músicos todos eles vindos da Amazónia. À primeira vista, parece uma coisa completamente alheia ao meu trabalho, mas o facto é que eu sou de Belém do Pará, é de lá que vem esta minha natureza, que dizem, tão solar e energética. Este espectáculo faz parte do meu reencontro com a minha história e com as minhas raízes que começou no ‘Vermelho’. Aquilo que os portugueses vão poder ver é, fundamentalmente, um espectáculo de cordas e percussão, com uma sonoridade muito tribal e aquática. Todos os músicos são paraenses e a percussão que vamos trazer, é toda ela indígena e muito forte. O espectáculo é sobre o novo disco, ‘O Canto das Águas’, um disco muito louco que tem uma vida muito própria.
- Que significado tem para si esta sua estreia no Coliseu?
- O Coliseu é a grande casa de espectáculos de Portugal. É um ícone como o Canecão no Brasil. Este espectáculo que venho apresentar ainda só tinha sido montado na Ópera do Pará. Por isso estou muito expectante porque acho que vai resultar numa coisa muito bonita...
- Dia 16 canta também no Santuário de Fátima. O que vai acontecer?
- Vou cantar o ‘Avé Maria’. Vai ser assim uma espécie de reedição daquilo que aconteceu em 1987 quando o Vaticano me convidou para cantar para o Papa. Aliás, tudo isto é muito emblemático, até porque não acredito em coincidências. Senão vejamos. Sendo eu Fátima, vou cantar a Fátima no dia de aniversário da morte do meu pai. E, daí, vou directamente para Belém.
- Ao longo destes 17 anos de carreira em Portugal, quais as memórias que mais guarda?
- O meu primeiro grande espectáculo em Portugal foi o encerramento da campanha do PS em 1985, no Terreiro do Paço, que foi uma coisa em grande. Eu era a única artista brasileira e lembro-me de ter caminhado lado a lado com o Mário Soares. Depois, veio o Casino do Estoril que me emocionou muito. A Expo’98 foi também inacreditável. Lembro-me que tocámos à 01h00 para 37 mil pessoas com um frio imenso que rebentou com o nosso coração. E depois a última grande memória foi quando cantei no Estádio da Luz.
- Como se define a Fafá hoje?
- É engraçado. Olhando para trás, a minha carreira nunca poderia ter sido linear porque eu própria não sou linear. Sou muito brasileira, irrequieta e permito-me ser plural na minha música.
- É possível distinguir a Fafá cantora, da Fafá mulher e ser humano?
- Não. Sou apenas uma só. A Fafá do palco é a mesma que vai para as tascas comer percebes. Sou uma pessoa comum com uma profissão glamorosa.
- Sente-se uma referência da música no Brasil?
- Não penso muito nisso. Nunca quis ser cantora. Se for uma referência é pelo facto de ser diferente. Mas, apesar dos 30 anos de carreira e do reconhecimento, isso não me faz ‘subir nos saltos’. A minha vida continua normal. A responsabilidade do ser é muito mais importante do que a responsabilidade do ter.
PERFIL
Nascida a 10 de Agosto de 1956 em Belém do Pará, Fafá começou a cantar aos nove anos. Morou no Rio de Janeiro entre 1970 e 1973, tendo voltado a Belém para conhecer Roberto Santana, então empresário do conjunto Quinteto Violado, que a incentivou a apresentar-se em público. Nos primeiros 21 anos de carreira, lançou 18 álbuns, dos quais se destacanm ‘Do Fundo do Meu Coração’ (1993), ‘Fafá’ (1994) e ‘Pássaro Sonhador’ (1996).
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