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Correio da Manhã

Cultura
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SOUBE A (MUITO) POUCO

Tão intensa quanto breve, assim foi a passagem dos Queens of the Stone Age (QOTSA) pelo Paradise Garage em Lisboa. “Soube a pouco”, lamentava a multidão que segunda-feira lotou a sala de Alcântara, que registou uma das suas maiores enchentes de sempre.
27 de Novembro de 2002 às 00:00
E o caso não era para menos. Na verdade, os QOTSA são – desde a edição (recente) do seu último álbum, “Songs For the Deaf”–, a banda sensação no capítulo do rock. Algo que os próprios fazem questão de minimizar (ver caixa) mas que as canções se encarregam de desmentir. Como ficou provado em Lisboa, naquele que foi o segundo concerto da banda neste regresso ao nosso país. O primeiro aconteceu na véspera, no Porto.

A abertura, com LC o primitivo “You Think I Ain’t Worth a Dollar But I Feel Like a Millionnaire”, denunciou desde logo a intenção do grupo em privilegiar o actual registo. Ao vivo, porém, as novas canções mostraram ser mais abrasivas e hipnóticas ainda do que em disco. Foram os casos concretos de “Six Shooter” (um punk-core vocalizado pelo baixista Nick Oliveri), “Hangin’ Tree” (com o “crooner” Mark Lanegan, nas vozes) ou mesmo o hit “No One Knows”, apresentado por Josh Homme como a “song N.º 2”, numa clara referência ao lugar que o tema ocupa no disco.

Esta permanente variedade de referências estílisticas – do heavy sideral ao punk-hardcore, passando pelo garage rock ou canção melodiosa, casos de “Go With the Flow” ou “The Sky Is Falling”, este servido em “encore”– foi (é) – um dos trunfos exibidos pelo colectivo em Lisboa. A sua imagem distintiva. Dito de outra forma, para os QOTSA a regra é a demolição dos muros que limitam a criação. Como o sublinham com as vocalizações repartidas por Josh, Nick e Mark, ou com as mais ou menos frequentes mutações de formação e colaborações diversas. Depois de Dave Ghrol, afigura-se nova parceria, desta feita com P.J. Harvey.

Foi esta irreverente dinâmica revitalizadora do rock que os QOTSA trouxeram até nós. Apesar de curto, o concerto foi de uma intensidade invulgar e poucos foram, de facto, os momentos de calmaria em palco, com a banda a entregar-se também, e com frequência, a desbundas experimentais, autênticos arrasos sónicos de que foram exemplos maiores “The Lost Art of Keeping A Secret”e “Feel Good Hit of Summer”. Ainda assim... soube a pouco.

NÃO QUEREMOS FAZER PARTE DE NENHUM MOVIMENTO

Bem disposto mas terrivelmente bocejante (o concerto no Porto “foi excelente” e deixou marcas), o baixista Nick Oliveri falou ao CM poucas horas antes de subir ao palco do Garage. Uma oportunidade que aproveitou para se distanciar da actual espiral de renascimento rock protagonizada por bandas como The Strokes, Hives, The Datsuns e White Stripes, entre muitos outras. “Não queremos fazer parte de nenhum movimento. Quando alguém nos diz que fazemos parte de qualquer coisa, mudamos imediatamente. Não nos guiamos pela moda. Controlamos o nosso destino e tentamos fazer sempre aquilo de que gostamos”. De acordo com Oliveri, o recente “Songs For the Deaf” mais não é do que o reflexo do apetite do grupo pelo rock... mas à sua maneira, isto é, nele incluindo toda uma série de referências que vão do “garage rock, punk, hardcore... e polka”. “É como se se rodasse o botão da rádio, tirando daqui e dali”, disse. “Temos três vocalistas na banda e as canções variam imenso, há acústicas, punk e... tudo. Acho que o único lugar onde é possível encontrar tudo isso é na rádio”, lançou. Na verdade, em “Songs For The Deaf” há mesmo uma canção intitulada “God Is On the Radio”.

Quanto ao futuro, Oliveri sempre adiantou que já “há novas canções para um disco”e que um novo regresso a Portugal deverá acontecer “no próximo ano, na época de festivais”, adiantou.
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