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Correio da Manhã

Cultura
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Surrealista até na morte

Surrealista até na morte, Cesariny foi velado entre os livros da Biblioteca do Palácio Galveias, com a sua própria poesia a ganhar fôlego na voz da primeira-dama do teatro português, Eunice Muñoz.
28 de Novembro de 2006 às 00:00
As cerimónias fúnebres da praxe foram, assim, substituídas pela poesia do mentor do surrealismo em Portugal, o que não tendo sido desejo expresso seu, foi a melhor forma encontrada pelos amigos para o homenagear: “Qualquer outro ritual tornaria a coisa hipócrita”, explicou o actor e amigo João Grosso que, com o actor Luís Lucas e o poeta Fernando Grade, prolongou ‘a voz’ de Eunice.
“É uma raça de gente em extinção e não há quem a substitua nessa capacidade de ser frontal, nesse legado de honestidade ética, que era o que eu via no Cesariny e o que o fazia irradiar aquela força”, disse ainda ao CM sobre o sentimento de perda pelo amigo e pelo artista completo que foi Mário Cesariny, cujo corpo ocupa desde ontem o gavetão municipal número 29 do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
E nem a chuva imensa e intensa que se fez sentir na tarde de ontem demoveu a multidão que chegava tão silenciosa como partia. Uns conhecidos, outros não. Todos tristes.
Inconsolável estava a governanta do artista que foi quem, na véspera, difundiu a notícia do fim. “A presença mais constante da casa nos últimos anos”, segundo a amiga que a acompanhou das Galveias, onde o corpo foi velado, aos Prazeres.
A estas duas presenças discretas, deliberadamente anónimas, juntaram-se as de alguns sobrinhos e até um sobrinho-neto (ver caixa).
Ausências sentidas foram as do grupo ‘Os Surrealistas’, justificadas pela comoção dos seus elementos, que o fizeram saber pelo galerista António Prates, pai da jornalista Raquel Prates, presente com o marido, o pintor João Murrillo.
Do escultor José Coêlho ao editor Manuel Rosa, do poeta e deputado Manuel Alegre ao ex-autarca João Soares, não faltaram amigos.
E em representação do Ministério da Cultura, o secretário de Estado, Mário Vieira de Carvalho, de quem ouvimos comentário tão inesperado como tudo o resto: “Havia nele uma verticalidade de não pactuar com a hipocrisia e com o discurso oficial que o fez uma referência na minha juventude e na minha geração”.
"ÓPTIMO SENTIDO DE HUMOR"
“Era meu tio-avô, irmão da minha avó Henriette Cesariny de Vasconcelos, e uma pessoa extraordinária, inconformada com a realidade, não só do País, mas do Mundo.
Tinha uma visão muito particular das coisas e uma habilidade única de se exprimir. Na intimidade era uma pessoa bem-disposta, irónica e sarcástica, com um óptimo sentido de humor e muito gosto em viver. Tanto podíamos falar de coisas comezinhas como de temas universalistas...
Era muito interessante”, disse Jorge Carvalho Mourão, sobrinho-neto.
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